Os frios números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre migração, que indicam que em 2004 no Paraná 7,1 milhões de pessoas viviam fora dos seus municípios de nascimento, não dão a dimensão da batalha que a migrante Aparecida de Fátima dos Reis, 35 anos, trava todos os dias para criar sozinha os cinco filhos pequenos em um assentamento na Zona Norte de Londrina. Depois da morte do marido, há seis meses, ela se viu obrigada a deixar o sítio em Ortigueira onde vivia para garantir o tratamento de saúde à filha caçula, que tem problemas cardíacos e é acompanhada pelo Hospital Infantil.
A família leva uma vida miserável, onde tudo falta, menos a determinação de continuar lutando pela saúde da pequena Naiara, de um ano e seis meses. Aparecida conta que a vida dela e dos cinco filhos - o mais velho tem 11 anos - virou um pesadelo desde que o marido, com o qual viveu por 20 anos, morreu atropelado por uma caminhão que não parou para prestar socorro. Depois disso, a família se viu sem nenhuma fonte de renda. ''Minha vida acabou depois disso. Antes dele morrer, a gente vivia bem no sítio. O meu mais velho chora muito e até hoje não se conforma. Ele era muito grudado no pai. Passavam o dia trabalhando juntos'', emocionou-se.
Sem condições de arcar com as despesas das viagens semanais até Londrina, onde precisava trazer a filha doente, Aparecida decidiu se mudar para cá há duas semanas. Acabou indo morar em um barraco de dois cômodos cedido por moradores em uma área invadida na Zona Norte. Na casa há apenas um velho sofá, um colchão de solteiro onde dormem os quatro filhos menores e um tapete onde ela e o filho mais velho passam as noites. ''Não tive como trazer minhas coisas porque ficava muito caro'', afirmou. A família tinha para comer ontem arroz e fubá, que foram doados por vizinhos também pobres como ela. Os alimentos são temperados apenas com sal e preparados no quintal em um fogão feito de tijolos e uma chapa. Apenas a caçula toma leite. ''Tive que tirar dos outros para sobrar para ela, que precisa mais'', apontou. Muitas vezes, ela própria fica sem comer para dar aos filhos. Sem nenhum brinquedo, as crianças se divertem com os dos amigos da vizinhança.
Em Londrina, já procurou diversos órgãos oficiais mas não conseguiu quase nada. No Programa do Voluntariado do Paraná (Provopar) ouviu que ajuda só seria possível no ano que vem. Na igreja católica do bairro também não conseguiu nada. ''Vivo da ajuda dos vizinhos e da misericórdia de Deus'', disse. No posto de saúde, apenas ontem ela conseguiu o antibiótico que a filha precisa tomar para evitar infecções. Fazia dois dias que a criança estava sem o remédio. Embora três das crianças estudem, Aparecida não conta com nenhum benefício federal.

A FOLHA procurou a secretária municipal de Ação Social, Maria Luiza Rizotti, mas até o fechamento desta edição ela não deu retorno.
Quem puder ajudar Aparecida e seus cinco filhos pode telefonar para a vizinha dela, Rose, no (43) 3336-9370.

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