Sid Sauer
De Campo Mourão
A dona de casa Jocelaine Sieter de Souza, 38 anos, está acusando três hospitais de Ubiratã (96 km a sudoeste de Campo Mourão) de negligência médica. Ela está revoltada com a morte da filha Meiriane Sieter de Souza, que faria quatro meses na quarta-feira, depois de percorrer os três estabelecimentos no domingo à tarde e só conseguir atendimento na madrugada de segunda-feira. A criança morreu na segunda-feira às 10 horas.
Jocelaine disse à Folha que a filha dela estava com falta de ar e gemendo bastante, no domingo, por volta das 12h30, quando ela saiu atrás de atendimento médico. ‘‘Procurei ajuda em todos os hospitais’’, contou. No Hospital Nilza de Oliveira Pepino a dona de casa disse que recebeu a informação de que o médico de plantão não era pediatra e ela deveria procurar outro estabelecimento. O mesmo foi dito no segundo hospital, o São José.
Já no Hospital São Judas Tadeu, Jocilaine foi informada de que o médico só poderia ser chamado se ela tivesse uma requisição da Secretaria Municipal de Saúde. Jocelaine procurou uma funcionária da prefeitura, mas não encontrou a mulher que poderia lhe dar a requisição. ‘‘Como não consegui nada, voltei para casa’’.
Segundo Jocelaine, a criança melhorou um pouco e dormiu, mas acordou muito mal por volta das 2 horas. Ela voltou a procurar a funcionária que poderia fornecer a requisição. Por volta das 4h30, a dona de casa chegou ao Hospital São Judas Tadeu. Ela se queixou que a atendente primeiro preencheu a ficha para só depois chamar o médico. ‘‘Ele mandou dizer por telefone que a criança deveria receber inalação e soro’’, disse Jocelaine.
A dona de casa disse que somente cerca de 40 minutos depois foi atendida por uma pediatra. ‘‘A médica examinou a criança e disse que a situação dela era complicada’’, contou Jocelaine. Menos de cinco horas depois, a menina morreu. ‘‘Ela era uma criança saudável, que nunca havia tido problema antes’’, frisou a mãe. A dona de casa tem outros cinco filhos e mora num bairro pobre de Ubiratã. O marido dela trabalha em Maringá.
Os três hospitais foram ouvidos ontem pela Folha, por telefone, e negaram culpa na morte da criança. O diretor-técnico do Hospital Nilza de Oliveira Pepeino, Nirélcio Galão, disse que o estabelecimento está descredenciado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para a pediatria desde o dia 1º deste mês e que, por isso, orientou a dona de casa que procurasse outro hospital da cidade.
O diretor-proprietário do Hospital São José, José Rodrigues Neto, afirmou que o atendimento não foi feito porque o médico de plantão era ginecologista e não pediatra. ‘‘A secretária recomentou que a mãe procurasse outro hospital’’, explicou. Rodrigues admite, no entanto, que a secretária errou. ‘‘A criança estava realmente mal e ela deveria ter comunicado o médico de plantão, mesmo ele não sendo pediatra’’.
O diretor do Hospital São José criticou a burocracia do sistema de saúde em Ubiratã. ‘‘O atendimento está muito centralizado no poder público. O paciente tem que buscar autorização na casa do secretário. Isso não existe’’.
O diretor-clínico do Hospital São Judas Tadeu, José Carlos Abreu, afirmou que o estabelecimento deu toda a assistência à criança. ‘‘Ela morreu porque chegou muito mal’’, ressaltou. O diretor afirmou também que o médico que passou os primeiros procedimentos por telefone agiu dentro da conduta médica. ‘‘O médico dá as primeiras orientações por telefone para que elas sejam tomadas até que ele chegue ao hospital’’, explicou.
Abreu negou que o hospital tenha recusado o atendimento no domingo à tarde por falta de requisição. ‘‘A mulher não esperou o atendimento’’, disse. ‘‘O médico foi chamado para o atendimento, mas quando chegou, ela não estava mais no hospital’’. A Folha procurou ontem o secretário municipal de Saúde, Edmundo Behrend, mas foi informada que ele estava viajando.