Em um período de três meses, uma família reduzida à metade. A experiência foi vivida há nove anos por Silmara Carneiro Lobo, hoje com 48 anos. Na época ela perdeu o marido, vítima de câncer e, logo depois, uma filha de 21 anos morta com um tiro disparado pela ex-mulher do namorado. O que veio depois da tragédia foi, além da imensa dor da perda, um grande sentimento de impunidade. Desde a última sexta-feira, porém, Silmara diz estar respirando um pouco mais aliviada.
A responsável pela morte de sua filha Jacqueline Carneiro Lobo, em novembro de 1996, a enfermeira Maria Suely Costa Moura, foi presa em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, para onde se mudou logo depois do crime e chegou a cursar Direito. Maria Suely estava foragida desde março de 2004, quando os recursos impetrados pela sua defesa foram derrubados e expedido mandado de prisão. O julgamento da enfermeira aconteceu em 26 de outubro de 2001. Ela foi condenada a oito anos de detenção em regime fechado, mas conseguiu o direito de recorrer da sentença em liberdade.
''Faz muito tempo que estou esperando pela justiça dos homens, porque a de Deus eu sei que não falha. Não tem um dia sequer que eu não pense que aquela mulher me fez perder minha filha. Até hoje parece que sinto seus passos pela casa, chegando à noite da aula.'' O desabafo da mãe vem carregado de emoção, dor e saudade. ''Acho que oito anos ainda é pouco por ter matado minha filha, mas se ela realmente ficar este tempo atrás das grades já vou me sentir mais aliviada.''
A defesa de Maria Suely argumentou nos autos que ela estaria sofrendo de perturbação de sua saúde mental no momento do crime, o que a teria impedido de autogerenciar seus atos (tese da semi-imputabilidade). Em virtude disso, a pena mínima de 12 anos pelo homicídio foi diminuída em um terço. A morte de Jacqueline aconteceu no escritório onde ela trabalhava, no Centro da cidade.
Silmara acha que foi quem mais perdeu em todo o episódio. ''O ex-marido da Suely casou de novo com uma outra moça. Ela viveu todo este tempo lá em Presidente Prudente, com os filhos dela, fez até faculdade. Eu fiquei aqui, sem a minha filha e tendo que sobreviver a toda esta dor. Minha vida acabou.'' Silmara diz estar confiante que desta vez a Justiça não aceite mais recursos.
O advogado de defesa da enfermeira, Antonio Amaral, não foi localizado ontem pela reportagem para informar quais medidas judiciais pretende tomar. No seu escritório, a informação é que ele está viajando e só retorna amanhã.
De acordo com a promotora da 1 Vara Criminal de Londrina, Susana Broglia Feitosa de Lacerda, o último processo protocolado junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) tenta abrandar o regime de detenção proposto na sentença. A promotora disse ter sido informada sobre a presença de Maria Suely em Presidente Prudente no segundo semestre do ano passado. ''O País não conta com um sistema integrado de informações, e a Justiça de São Paulo não tinha conhecimento do mandado de prisão existente contra ela.''
Segundo Susana, assim que recebeu as imformações, entrou em contato com o Ministério Público de lá, que por sua vez informou a Polícia Civil. ''Neste tempo todo, sabíamos onde a Maria Suely morava e o que fazia, mas esperamos o momento certo de efetuar a prisão'', explicou.
A promotora explicou ainda que nos próximos dias a Vara de Execuções Penais (VEP) de Presidente Prudente deverá expedir comunicado oficial da prisão da enfermeira, que encontra-se em um presídio em Martinópolis, para que a Secretaria de Segurança Pública do Paraná providencie sua remoção para o Estado. ''Como Londrina não tem presídio feminino, ela deverá ser encaminhada para Curitiba.'' O juiz da VEP de Londrina, Roberto do Valle, informou ontem que ainda não recebeu nenhum comunicado oficial sobre a prisão de Maria Suely.

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