Lúcio Flávio Moura
De Londrina
A bóia-fria Maria de Lourdes Lourenço, 36 anos, está acusando a Polícia Civil e o Judiciário de Bela Vista do Paraíso (40 km ao norte de Londrina) de ter negligenciado atendimento médico ao seu filho, o detento Adriano Deodato Lourenço, de 20 anos.
Ele sofre de diabetes e teria perdido a visão por falta de tratamento adequado. A mãe diz que seu estado de saúde se agravou desde que foi detido há 43 dias. ‘‘Ele já deveria estar em um hospital há muito tempo. Não está enxergando nada. Ele pega o prato para comer tateando’’, denuncia.
Ele foi preso em flagrante por ter roubado cerca de R$ 700,00 de uma propriedade rural, ferindo sua liberdade condicional. Lourenço é ex-interno da Febem, onde ficou dos 9 aos 16 anos. Tem antecedentes por furtos e porte de drogas em Bela Vista e Londrina
‘‘Ele é bandido, mas é gente. Há três semanas que eu vou todos os dias ao fórum e na delegacia para tirar ele da cadeia. Quero tratar dele em casa. Lá ele pelo menos vai ter atenção e carinho’’, afirma Maria de Lourdes.
Ontem, pelo segundo dia desde que está preso, Lourenço foi transferido para um posto de saúde, onde recebeu soro e insulina. Ele também reclama de sintomas de gripe e apresenta emagrecimento rápido. De manhã, segundo o delegado Luis Carlos de Azevedo, ele havia vomitado sangue na cela. ‘‘Ele está recebendo tratamento, mas o estado dele é grave’’, afirmou Azevedo.
O juiz Hélder José Anunziato disse ontem que sabe do caso, mas ainda não havia sido informado pela polícia da gravidade do estado de saúde de Lourenço.
‘‘Se os médicos disserem que ele precisará ser removido da cela para ser internado em um hospital, assim será feito’’, afirmou o juiz no final da tarde de ontem. Ele iria aguardar os resultados de exames feitos ontem a pedido dos médicos. Ao que tudo indica, Lourenço dormiria ontem em uma pequena cela com outro preso.
Delegado e juiz dizem que nunca faltou atendimento adequado a Lourenço. ‘‘Ele tomava insulina na cela e o carcereiro insistia para ele tomar os remédios’’, garante o delegado. ‘‘Quando ele foi preso ele nem tinha documentação. Nós providenciamos isto e estamos de portas abertas para atender a família’’, disse o juiz.
A bóia-fria e o marido estão desempregados. Vivem no Conjunto Rosa Luppi, próximo a um antigo lixão que hoje abriga casas em área invadida. A família sobrevive com uma renda mensal de R$ 30,00, obtida com a venda de roupas usadas doadas por entidades assistenciais. Além do casal e de Adriano, o dinheiro sustenta mais três filhos menores.
‘‘Estou vendendo meu televisor para conseguir comprar comida para levar para o meu filho na cadeia’’, conta Maria de Lourdes, antes de abrir a geladeira, quase vazia se não fossem as garrafas com água.
Lourenço não pode se alimentar com as refeições preparadas na cozinha da delegacia. Com 445 miligramas de glicose por 100 mililitros de plasma (resultado do seu último exame), ele necessita de alimentação rica em verduras e legumes. ‘‘Ultimamente ele só come arroz com chuchu’’, lamenta a mãe.

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