Luto transforma o ser humano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de abril de 2010
Bruno Maffi<BR>Especial para a Folha 
Sempre em busca de prazer e realização, o ser humano evita falar e pensar em sofrimento, dor e perdas. Assuntos como a morte são excluídos nas rodas de amigos. Porém, quem não se interessa em ler sobre o tema? O medo e a superstição são vencidos por uma curiosidade bizarra.
Os mistérios da vida após a morte sempre foram questionamento para o ser humano. Mas, e a nossa vida após a morte de alguém que amamos? Como lidar com os sentimentos de dor e saudade? Segundo a psicóloga Fabiane Squarca, o tema da morte é reflexão porque todos sabem que deverão passar por ela. ''Queremos compreender o fim da vida e superar o sentimento de impotência que temos diante da morte''.
A psicóloga explica que o luto é um fator de mudança, de transformação no cotidiano do homem, porque põe fim a realizações e conceitos de felicidade adquiridos talvez por anos. ''Sofremos com o falecimento de alguém porque precisamos alterar nossos planos e preencher o vazio deixado pela falta desta pessoa. Esse sofrimento, se for trabalhado, gera equilíbrio, harmonia interior''.
Na luta para aceitar o falecimento de quem se ama, cada pessoa faz um processo diferente de elaboração do luto. Algumas mudam o visual, outras vão viajar e há quem fique chorando sem sair de casa. ''O que importa é como lidar com essa perda internamente. Entender o que estão sentindo, respeitar isso, mas não deixar de viver, procurar encontrar outros sentidos para sua vida'', orienta a psicóloga.
A pessoa em luto desiste do mundo externo e direciona para o mundo interno, para seus sentimentos, alimentando-os e tornando-se escrava deles. Libertar-se é talvez a tarefa mais difícil. ''Esse trabalho é individual, é a pessoa que deve tomar a decisão de vencer-se e continuar seu caminho.''
Outro passo a ser tomado é a decisão quanto aos pertences do falecido. Muitas pessoas sentem-se traidoras ao desfazer-se das lembranças, mas se elas causam muita dor, não podem ser cultuadas. ''É importante que cada pessoa ou família faça como se sentir melhor. Há casos em que no dia seguinte doa-se absolutamente tudo, para se guardar a lembrança da pessoa viva. Em outros casos as pessoas guardam alguns objetos de recordações, mas isso não pode ser um peso, um espinho permanente'', afirma.
A psicóloga Fabiane Squarca orienta a não se estender o luto. ''Em geral de seis meses a um ano deve-se superar o luto. Mais que isso pode vir a entrar num estado de melancolia, que implica outros processos, que devem ser tratados com a ajuda de um profissional.''
Outra presença que não pode falta é a dos amigos. ''Uma amiga, ao saber que outra amiga tinha perdido o marido há uns 15 dias, foi à sua casa e chegou abrindo janelas e cortinas. Colocou a amiga no banho e, enquanto essa chorava, ela brincava 'Irru, ficou viúva'. Nós não acreditávamos ao ouvi-la contar, mas isso que vale: cada um, com sua maneira de ser, contribui. Uns ouvem, outros levam pra sair, outros animam e outros simplesmente estão ali'', conclui.


