LUTO - O desamparo que sucede os crimes
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sábado, 15 de maio de 2010
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Para os desconhecidos, eles são apenas números a engrossar as estatísticas. Para as famílias, transformam-se, de um momento para o outro, em ausência insuportável. Na mesma proporção em que cresce o número de casos de crimes violentos grande parte deles envolvendo jovens , aumenta o batalhão de mães, pais, irmãos, mulheres, maridos forçados a aprender a conviver com a dor. Um aprendizado difícil, que poderia ser facilitado com o acompanhamento de profissionais especializados. O serviço, porém, não é ofertado pelo sistema público de saúde.
Em Londrina, as opções para quem não pode pagar atendimento particular são as universidades que oferecem curso de Psicologia e algumas instituições religiosas que desenvolvem projetos psicossociais. A oferta, porém, é bem menor que a demanda. A Clínica de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por exemplo, que atende a comunidade interna e externa (inclusive moradores de cidades da região), só vai reiniciar cadastramento para triagem em agosto.
A professora de Psicoterapia Familiar do curso de Psicologia da Unifil, Letícia Passos de Melo Sarzedas, revela que dificilmente a família procura por ajuda imediatamente após a tragédia. Um dos motivos para a demora no atendimento, segundo ela, é a forte cobrança por parte da sociedade para que a família retome a rotina de vida rapidamente, não dando tempo para vivenciar o luto.
Vivemos em uma sociedade em que as pessoas têm que se recuperar da dor de uma maneira muito rápida. Elas são cobradas para que estejam bem, independente do que estão enfrentando, observa Letícia. Mas conforme o tempo vai passando, por não ter elaborado este luto de maneira saudável, podem começar a surgir problemas de saúde mental, como depressão, e doenças físicas. Na maioria das vezes, as pessoas nem identificam que estes problemas estão relacionados à perda que tiveram.
Recuperar-se sozinho, sem apoio profissional, é difícil e, segundo a psicóloga, depende da estrutura psíquica e dos vínculos que a pessoa mantinha antes da morte, como relações familiares e sociais, que podem facilitar o processo. As pessoas têm medo de se expor, de demonstrar sofrimento, porque isso está associado à fraqueza, e fraqueza é algo que não é permitido na nossa sociedade.
No caso de mortes de adolescentes com histórico de envolvimento com tráfico de drogas e outros tipos de crimes a situação é ainda mais crítica, porque traz para a família um sentimento de vergonha, de culpa. A responsabilidade por tudo hoje recai sobre a família, e a gente sabe que não é bem assim. Hoje sabemos que a coletividade também é importante. As instituições também precisam se responsabilizar pelos cuidados com as crianças e os adolescentes.
Ela lembra ainda que quando um jovem morre por envolvimento com o tráfico, muda o sentido do assassinato. A comoção por parte da sociedade não é tão grande. Mas não deixa de ser uma pessoa que morreu de forma violenta.


