LUTO - Em poucos dias nos tornamos mais um número
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de maio de 2010
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Desde agosto de 2008 a empresária Luciana Sampaio Duim não entra em bancos. Ela contratou uma empresa de segurança, que se encarrega dos malotes do posto de gasolina que gerencia, e as demais transações bancárias são feitas pela internet. Ela também nunca mais pisou na academia que frequentava; só dorme após ingerir calmante; não para mais em sinal com o vidro do carro aberto e não faz mais planos para o futuro. Todas estas mudanças são resultado de um crime chocante testemunhado por Luciana. Ela chegava com o futuro marido e sócio, Rinaldo do Oliveira Silva, na época com 42 anos, a uma agência bancária na Área Central de Londrina, quando ele foi abordado por um assaltante e morreu com um tiro no peito.
Emocionada, a empresária revela que tem vivido um longo processo de luto. Só agora estou conseguindo retirar as fotos dele do meu quarto. É uma dor que está dentro da gente e parece não ter fim. Para vencer a depressão, ela procurou ajuda de um psiquiatra de São Paulo. Para Luciana, que nunca tinha perdido alguém tão próximo, o mais difícil foi retomar a rotina rapidamente, sem a presença do companheiro. Enterramos o Rinaldo na terça-feira e na quarta eu já estava de volta ao trabalho. Não tinha outro jeito, eu e ele é que cuidávamos de tudo, conta. Segundo a empresária, o trauma foi tão grande que hoje ela não se imagina tocando a vida sem o suporte médico. Talvez estivesse trancada em casa, sem coragem de sair.
Projeto
O médico Marcos Afonso Passo constatou a duras penas que não existe respaldo por parte das instituições públicas às famílias vítimas da violência. Em poucos dias nos transformamos em mais um número, mas a nossa dor continua lá. É como se houvesse uma espécie de cumplicidade entre a violência e o Estado. Como ele não consegue conter os crimes, não faz nada depois que eles acontecem. Passo perdeu o enteado, Gabriel Rezende Marques, de 20 anos, em um assalto em novembro de 2005. O jovem estava saindo de um bar, onde foi comemorar com amigos a aprovação em um intercâmbio fora do País.
A dor de perder um filho é algo antinatural, porque sempre achamos que vamos perder pai, mãe, mas não um filho. É muito difícil de metabolizar. Com o tempo, ele percebeu que uma das poucas coisas que o confortavam era conversar com outras pessoas que tinham passado pelo mesmo tipo de situação. Por isso tentou fundar um grupo de apoio, em que todos estivessem enfrentando a mesma dor. Mas ainda não conseguiu viabilizar o projeto.
A forma encontrada por Passo, a mulher e os dois filhos para amenizar o vazio causado pela ausência de Gabriel foi fortalecer os laços familiares. Eu praticamente troquei minha atividade profissional. Antes, como cirurgião vascular, fazia plantões à noite e nos finais de semana, tinha uma rotina cheia de imprevistos. Prestei concurso público e hoje só trabalho durante o dia, fico todos as noites em casa com minha mulher e filhos e tenho os finais de semana livres, conta o médico, atualmente perito do INSS.


