Imagem ilustrativa da imagem Lutando por dias melhores
| Foto: Gustavo Carneiro
Garotos são atendidos pela Associação Projeto Pão da Vida



A timidez para atender a reportagem em nada lembra o adolescente de 13 anos em seus primeiros treinos de kickboxing. Basta acompanhar alguns minutos dele em ação no tatame para ver que a oportunidade mexe com o garoto, atento a todas as orientações de seu mestre e professor, o lutador profissional da modalidade, David Silveira. Na frente dos sacos de pancada, o acanhamento com as palavras dá lugar a uma bravura admirável. É a chance de deixar para trás uma infância difícil, sofrida.
"Estou gostando muito. Vou trabalhar e estudar bastante para conseguir ser um lutador famoso, campeão", promete o garoto. É o esporte mais uma vez agindo como ferramenta de inserção social. "Aqui aprendo a ter mais disciplina, chegar nos horários certos para os treinos, respeitar os mais velhos, ir à escola", acrescenta o jovem, quando perguntado sobre os ensinamentos já reforçados nos primeiros dias da nova experiência.
O garoto é apenas um dos 12 jovens da Associação Projeto Pão da Vida, de Londrina, que participam das atividades da arte marcial na academia de Silveira. As aulas começaram há apenas dois meses, mas os resultados já aparecem. "Eles se sentem valorizados e respeitados. O professor trabalha muito a questão da disciplina, que o esporte promove e que eles têm dificuldades de ter no dia a dia, porque não faz parte da rotina deles", aponta a gerente do abrigo, Fátima Reale Prado.
Outro participante é um garoto de 11 anos que é fã de MMA (Artes Marciais Mistas). "Quero ser policial, e preciso ficar bem treinado. E aqui estou aprendendo que tenho que treinar e estudar bastante para alcançar um futuro bom. Estou bem feliz", diz, empolgado.
E como a ideia é oferecer uma atividade de socialização e valorizar os garotos, Silveira os colocou para treinar junto aos demais alunos. "Havia um horário só para o projeto, mas como a gente queria inserir os garotos, não tinha como deixá-los separados. Ali no tatame eles são todos iguais, independente da condição social", conta.
"Quando a gente fica sempre vendo miséria, paramos de ver oportunidades. Eles têm oportunidade de lidar com outras realidades, atletas profissionais, amadores, pessoas buscando crescer, e vislumbrar oportunidades de verdade, de futuro", reforça a gerente do projeto.

REFERÊNCIA
Professor dessa turma, o londrinense David Silveira, de 34 anos, é hoje um atleta consagrado de kickboxing. Ganhou duas vezes o brasileiro da modalidade e agora se prepara para fazer sua estreia no MMA. Mas o lutador um dia já esteve na pele de seus novos alunos e sabe bem o que é superar dificuldades. "Vivi muito do que eles passaram. Ficava um mês na casa de um tio, mais um em outro e meu maior sonho era ter uma casa", relembra.
Para quem sonha um dia com o profissionalismo, o lutador dá seu recado. "Se hoje eles acham que tenho alguma coisa, reforço que também podem ter. Eles acham que sou famoso, é a visão deles, podem ser iguais, basta fazer o que fiz. Treinei muito, estudei, me formei e batalhei muito. Isso é o que tenho tentado passar", ensina David.
"O esporte faz a diferença exatamente pelos critérios que são próprios dele e, em especial, para o nosso público, a questão da frustração. No esporte eles são treinados hora para ganhar, mas vão perder também, são trabalhados para isso. E na vida, é exatamente isso que acontece. O público de alta vulnerabilidade, como o nosso, está acostumado a perder, a vivenciar frustração todos os dias, e o esporte vem proporcionar a eles o diferente, a superação. Isso motiva os garotos", ressalta Fátima.

ABRIGO
O abrigo foi criado há 16 anos para receber adultos em situação de vulnerabilidade social e há cinco começou a atender também crianças e adolescentes em condições de risco. Atualmente a instituição atende 26 jovens. E a preocupação é promover a garantia de direitos, além da inserção social. "O foco é buscar universos diferentes, tirar os adolescentes dessa situação dos mesmos espaços, envolvidos sempre com os mesmos personagens", salienta a gerente.
A Associação Projeto Pão da Vida realiza diariamente cerca de 162 atendimentos em sete abrigos. A entidade tem um convênio com a Prefeitura de Londrina, mas necessita de mais apoio para continuar oferecendo condições de vida dignas a seus moradores. As principais demandas são alimentos e produtos de higiene pessoal.

SERVIÇO: Quem quiser colaborar com o Projeto Pão da Vida pode ligar para (43) 3326-3539 ou 3343-3529.

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