Luta pela terra definitiva durou 15 anos
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de novembro de 1997
Valmir Denardin Diamante do Oeste 
Ney de Souza
ProduçãoA Fazenda
Padroeira
é quase
toda coberta
de mata
nativa e
cortada
por dois
rios; índios
preparam
a terra
para o
plantio de
culturas de
subsistência,
com
financiamento
garantido
em convênio
com a
Itaipu
Talvez a mais longa e dramática saga de uma comunidade indígena do Paraná em busca de terra foi escrita com resistência pelos avá-guarani, no Extremo-Oeste do Estado. A tribo esperou 15 anos por uma reserva definitiva.
Com a construção da Hidrelétrica de Itaipu, em 1982 os avá-guarani tiveram sua reserva de 1.700 hectares - à margem esquerda do Rio Paraná - inundada pela formação do reservatório da usina. A Itaipu Binacional, empresa criada por Brasil e Paraguai para a implantação da maior hidrelétrica do mundo, transferiu a comunidade, então com 95 índios, para uma área seis vezes menor: a reserva de Ocoí-Jacutinga, no município de São Miguel do Iguaçu (45 km ao norte de Foz do Iguaçu), agora na margem do gigantesco lago de 1.350 quilômetros quadrados que acabara de se formar.
Com terra insuficiente para caçar, pescar e manter sua cultura, os avá-guarani entraram em um ciclo de fome e desagregação. Uma parte deles migrou para as cidades, muitos viraram bóias-frias e outros morreram intoxicados pelos agrotóxicos usados nas lavouras vizinhas à reserva.
Em junho de 1995, cerca de 150 índios invadiram uma área de 600 hectares no Refúgio Biológico Bela Vista, em Foz do Iguaçu. O refúgio é uma reserva técnica da Itaipu para a preservação de espécies animais e vegetais, onde a caça e o desmatamento são proibidos por lei. Além de chamar a atenção para a falta de espaço no Ocoí-Jacutinga, a invasão teve o objetivo de pressionar a Itaipu a fazer o assentamento definitivo da tribo.
O desfecho da saga começou em 18 de abril deste ano (véspera do Dia do Índio), quando a Itaipu transferiu os 163 avá-guarani que permaneciam no Refúgio Biológico para uma fazenda de 1.744 hectares, comprada pela binacional, no município de Diamante do Oeste (150 km ao norte de Foz do Iguaçu).
Quase totalmente coberta de mata nativa e cortada por dois rios limpos e ricos em peixes (São Francisco e São Domingos), a nova reserva, chamada até então de Fazenda Padroeira, foi batizada pelos índios de Tekoha-A¤etete (aldeia verdadeira na língua da tribo, o guarani). Os índios nem se preocuparam em construir ocas: ocuparam as casas de madeira que pertenciam aos funcionários da fazenda.
Apesar de estar longe de ser o paraíso - ainda falta comida -, a reserva começa a devolver a esperança aos avá-guarani. Aqui passamos menos fome, tem um pouco de caça e pesca e as pessoas não ficam mais doentes, resume o cacique Inocêncio Tupã-Rendavy Acosta, um homem de estatura baixa, 51 anos, oito filhos, poucas palavras e fala mansa.
Segundo Manoel Werá (relâmpago, em guarani) da Silva, 37 anos, que atua como uma espécie de auxiliar do cacique, a remessa de cestas básicas de alimentos feita pela Funai é insuficiente e a falta de sementes prejudicou o plantio de lavouras de substência na nova reserva.
Vladinei Tadeu da Silva, administrador da Regional da Funai em Guarapuava, disse à Folha que a quantidade de cestas básicas (67 quilos de alimentos por mês para cada família) foi estipulada pelos próprios índios. Em relação ao plantio, Tadeu da Silva afirmou que o atraso de um mês e meio na liberação de R$ 56,8 mil de um convênio com a Itaipu foi consequência de problemas burocáticos.
Previsto para agosto, o convênio só foi assinado no último dia 17. O dinheiro já começa a ser usado na compra de sementes. Quarta-feira, um trator preparava uma área para o plantio.
Em relação à reserva Ocoí-Jacutinga, onde permanecem 172 avá-guarani - que, principalmente por problemas de adaptação com o restante da tribo, não se mudaram para Diamante do Oeste -, Tadeu da Silva informou que esse grupo será beneficiado pelo Programa Lavouras Comunitárias, do governo federal. Com recursos de R$ 232 mil, o programa vai financiar a compra de sementes, adubo e o pagamento do aluguel de máquinas para a implantação de lavouras de alimentos básicos em todas as reservas indígenas do Estado. (Leia mais sobre o conflito fundiário em terras indígenas na edição de terça-feira da Folha Cidades)


