Eles estão em vários pontos da cidade. Mendigando, vendendo doces nos semáforos, cometendo pequenos e grandes delitos, nos lembrando a todo momento das terríveis (e aparentemente sem solução) feridas da sociedade. Em Londrina, segundo informações da Secretaria Municipal de Assistência Social, o trabalho desenvolvido pelo Projeto Sinal Verde reduziu o número de meninos e meninas nas ruas, mas alguns casos de infâncias roubadas permanecem sem solução. Em janeiro deste ano um empresário foi agredido por menores que estavam fumando crack no estacionamento de seu estabelecimento comercial, na Avenida Higienópolis.
A secretária de Assistência Social, Maria Luiza Rizotti, afirma que atualmente há 14 crianças e adolescentes que, junto com seus familiares, resistem em deixar as ruas. São casos que não se limitam à questão da pobreza e se configuram como exemplos típicos da chamada desproteção familiar. ''São crianças e adolescentes que apresentam um histórico de alta reincidência nas ruas'', revela a secretária. No caso de alguns destes menores a questão já extrapolou o âmbito da política de assistência, com envolvimento da polícia.
''Existem dois casos típicos: um em que as crianças são exploradas pelos adultos e outro em que elas se envolvem com o tráfico e com o uso de drogas. Alguns são usuários compulsivos'', esclarece Maria Luiza. Ela afirma que o grande esforço das equipes do Sinal Verde é tirar a criança o mais rápido possível da vida nas ruas, porque quanto mais tempo ela permanece nestas condições, maior a dificuldade de levá-la de volta aos vínculos familiares. ''Com o tempo ela se agrupa, é aliciada pelo tráfico'', explica.
Segundo a secretária vários estudos mostram que o maior desejo dos jovens moradores de rua é ter uma família, e é para este sentido que o trabalho das duas equipes do Sinal Verde é norteado. ''Os abrigos são a última opção, e de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, são um recurso temporário, que deve ser determinado pelo juiz da Vara da Infância e da Juventude. A prioridade deve ser a reinserção familiar.''
Atualmente Londrina tem 14 casas-abrigo, quatro delas mantidas pelo município, que são voltadas aos egressos de rua. Para as demais, mantidas por igrejas e instituições beneficentes, são encaminhadas as vítimas de situações como violência doméstica. A rede abriga ao todo aproximadamente 200 crianças e adolescentes.
De acordo com a secretária, o Sinal Verde aborda atualmente uma média de quatro crianças por dia nas ruas. Ela considera o número satisfatório, tendo em vista o tamanho da cidade. ''No ano passado 486 crianças foram abordadas. Destas, 154 eram de outros municípios, e 91 eram reincidentes. Algumas vieram uma única vez para as ruas e nunca mais voltaram. Outras 169 foram integradas a projetos sociais ou encaminhadas para casas-abrigo, e portanto, estão longe das ruas.'' Ela garante que a situação melhora a cada ano, e ilustra com um dado de 2001: ''Em janeiro daquele ano, em uma única manhã, encontramos 143 pessoas pedindo esmolas na cidade.''
A lei determina que a criança ou adolescente que for retirada da rua para abrigamento deve ser convencido a permanecer no novo lar, e nunca mantido a força, sob risco de configurar-se cárcere privado. Mas mantê-los em um ambiente que possui regras não é tarefa fácil.
''Viver em um abrigo significa respeitar normas, limites e compromissos, como o estudo. Para alguns isto é muito complicado, até porque há a concorrência das drogas, do dinheiro fácil da mendicância e do tráfico, e da falsa liberdade. A rua é o espaço onde eles criam suas regras'', define o coordenador do Projeto Casa-Abrigo do município, Dorival Santana.
Santana reafirma que o abrigo não é a melhor solução. ''Abrigo não é reformatório, nem hospital. É um local de passagem para aqueles que não têm referência familiar ou que a família está fragilizada demais'', explica. Ele lembra que do lado oposto daqueles que resistem em ir para os abrigos estão os que têm dificuldade em sair. ''Aqui são bem alimentados, recebem atenção, aprendem hábitos de higiene, coisas que nem sempre encontram em suas casas.''
Para os profissionais da área, porém, os bons resultados dos programas sociais podem ser comprometidos se a população mantiver o hábito de dar esmolas. O correto, segundo a secretária de Assistência Social, é acionar imediatamente o Projeto Sinal Verde. ''O dinheiro da esmola não vai resolver o problema da família e ainda pode estimulá-lo a permanecer nas ruas. Além do mais, o uso que aquela criança vai fazer do dinheiro nem sempre é o que se espera'', observa.

Serviço:
O Projeto Sinal Verde mantém equipes nas ruas diariamente, das 8 às 23 horas, e pode ser acionado pelos telefones (43) 3378-0417 / 9991-4568 e 9996-3497.

mockup