Maigue Gueths
De Curitiba
A menina Ludmila Obreenska, 10 anos, é uma das cinco crianças ucranianas que chegaram ao Brasil há um mês para tratar de sequelas de saúde causadas pelo acidente nuclear de Chornobyl. Um mês depois, com a saúde bem melhor, suas impressões sobre o Brasil revelam a vida simples em sua terra natal. O que ela menos gostou, aqui, foi de ter que comer feijão e carne. Em compensação, gostou muito das novas guloseimas, antes desconhecidas em seu cardápio, como a pizza, pastel e hamburger, e está adorando brincar com as bonecas, patins e bicicletas de suas ‘‘irmãs’’ brasileiras.
É a segunda vez que crianças ucranianas vítimas de Chornobyl vêm ao Brasil para fazer tratamento de saúde. Trazidas pela Representação Central Ucraniano-Brasileira, em parceria com o Hospital Evangélico, dia 25 de julho mais cinco crianças desembarcaram na cidade, três meninas e dois meninos. Uma tem anemia hemolítica e quatro estão com leucemia, sendo que em duas delas a doença está em fase regressiva. É o caso de Ludmila, que está fazendo tratamento apenas para controlar a doença, sem precisar se submeter a quimioterapia. Nas primeiras semanas ela fez exames e consultas frequentes ao hospital, mas agora só toma medicamentos e a doença está regredindo.
Ludmila mora no pequeno município de Malen, na Ucrania, em um sítio com os pais, uma irmã e a avó. Lá, a vida é simples, muito do que se come é produzido ali mesmo, praticamente não existem eletrodomésticos, os brinquedos são caros e poucos, ou seja, as facilidades de consumo de uma cidade grande simplesmente não existem em Malen. Por isso, aqui em Curitiba, tudo o que vê é novidade, desde o microondas ao walkman, passando pelo chuveiro, já que em sua casa toma-se banho em bacias.
Aqui ela está na casa de um casal da comunidade ucraniana, Estefano e Marta Sidyr, que tem três filhos, um casal gêmeo de 21 anos e Ana, de 15. ‘‘Nunca comi tanto macarrão na minha vida’’, diz Marta, contando que a família teve que adaptar seu cardápio com a chegada da menina. Ela é acostumada a comer muita massa, legumes, verduras e pouquíssima carne. Super tímida, Ludmila fala pouco e só em ucraniano. Assim, em casa, Estefano é quem melhor se comunica com ela. Mas mesmo tendo que superar os problemas de comunicação, ela ficou agarradíssima aos ‘‘irmãos’’ curitibanos, com quem gosta de jogar baralho e dominó.
Como todas as cinco crianças estão hospedadas em casa de pessoas que já se conheciam porque integram o grupo folclórico, é comum fazerem programas juntos ou irem se visitar. ‘‘O que ela mais gosta é quando estão os cinco juntos, daí ela se solta’’, conta Estefano. Ela já fez vários passeios por Curitiba, mas o que mais gostou foi das apresentações dos grupos folclóricos que foi ver no teatro Guaíra.
Ludmila vai ficar mais um mês em Curitiba, quando fará apenas mais duas consultas médicas. Por isso, a família já está pensando nos programas que poderá fazer com ela. No feriado de 7 de setembro, vão todos para o litoral e Ludmila vai ver, pela primeira vez a praia. ‘‘Eu não tenho idéia de como é, mas eu quero ir’’, diz a menina. Também já estão sendo preparados alguns passeios com as cinco crianças juntas: uma viagem de trem para Paranaguá, provavelmente no dia 11, e um passeio ao Beto Carrero World. Ludmila, que está registrando tudo o que tem feito em Curitiba em um caderno, certamente terá muito o que contar quando chegar em sua casa, na Ucrânia.Criança ucraniana está há um mês em Curitiba tratando sequelas do acidente de Chernobyl e adorou as pizzas e brinquedos
José SuassunaAdaptaçãoA menina Ludmila Obreenska junto com membros da família Sidyr, que a hospeda em Curitiba enquanto ela faz tratamento de saúde

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