Loteamento é ameaça para área verde
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sábado, 29 de maio de 1999
Vânia Moreira 
Quase a metade do Cinturão Verde, a faixa de mata nativa que circunda Cianorte (87 km a nordeste de Umuarama) está devastada e pode ser liberada para desmate e loteamento. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) ainda está fazendo um levantamento, mas estima-se que quase 300 hectares do cinturão, de 600 hectares, já estejam perdidos.
Vânia MoreiraProtestoAgrônomo Daniel Merlini: proposta de convocar estudantes para abraçar a mataDepredadas por moradores de bairros próximos e por sucessivas queimadas, estas áreas exigem altos investimentos e muito tempo para recuperaração. Dona da reserva, a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP) propôs à prefeitura e ao IAP a liberação das áreas degradadas para loteamento. Em troca, a empresa doaria ao município os 330 hectares de mata que estão melhor conservados.
Como parte do acordo, a companhia também quer autorização para desmatar áreas em lotes rurais, onde a reserva legal ultrapassa os 20% exigidos por lei. Se os pedidos da Melhoramentos forem atendidos, pelo menos 500 de aproximadamente 1.200 hectares de florestas que a companhia tem nas áreas urbana e rural vão desaparecer.
Vânia MoreiraInconformadoAgrônomo Frederico Fonseca: revoltado com a derrubada de peroba-rosa da áreaO diretor administrativo da CMNP em Jussara, Maurício de Souza, informou que a companhia apresentou um protocolo de intenções ao município e à Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Segundo Souza, na avaliação da companhia a área devastada a ser loteada alcançaria de 150 a 200 hectares.
O restante do Cinturão Verde será repassado ao município com a condição de que seja efetivamente preservado. Segundo Souza, a companhia não tem condições de cuidar da reserva. Com a doação, o município passará a receber ICMS ecológico e terá recursos para aplicar na preservação, ressaltou.
Segundo o prefeito Flávio Vieira (PPB), o município aceita a proposta da companhia, mas está apenas intermediando politicamente as negociações. Caberá à Secretaria do Meio Ambiente determinar quais as áreas que estão devastadas e autorizar ou não a ocupação, informou.
Vânia MoreiraO que sobrouTronco de peroba-rosa: ação do meio contribuiu no desmatamentoVieira acredita que o acordo será vantajoso para o município, porque ganhará 330 hectares de mata, poderá receber ICMS ecológico e desenvolver projetos de proteção. Hoje Cianorte recebe pouco mais de R$ 600,00 pelo Parque Municipal do Mandhuí, 20 hectares do cinturão doados há três anos depois que o secretário do Meio Ambiente, Hitoshi Nakamura, negociou pessoalmente com diretores da CMNP.
Vieira calcula que a nova doação renderia mais de R$ 17 mil por mês. Se o cinturão virar parque muncipal, a prefeitura pretende cercar a mata, colocar guardas para coibir depredações, investir em projetos turísticos e em educação ambiental.
Única organização não-governamental ambientalista de Cianorte, a Associação de Proteção ao Meio Ambiente (Apromac) prevê que o acordo vai gerar muita polêmica e críticas. A entidade não aprova a negociação, mas não vê outra alternativa. Se cada parte não ceder um pouco , o cinturão vai desaparecer aos poucos, sustentou o presidente da Apromac, Eleutério Langowski, engenheiro florestal do IAP.
Ele disse que há 20 anos tenta-se encontrar soluções para conter a devastação da reserva, sem resultados. Este acordo não é o ideal, mas o possível. O município jamais conseguirá dinheiro para comprar o cinturão e recuperar as áreas destruídas. A companhia tem interesses comerciais e não vai abrir mão de uma área tão extensa e valorizada sem receber nada em troca. Para Langowski, o município vai ficar com o filé mignon do cinturão e terá meios para pôr em prática ações conservacionistas .
Vânia MoreiraAção contra o verdeTroncos de peroba-rosa do cinturão verde são arrastados por tratorTécnicos do IAP de Umuarama estão vistoriando às áreas de reserva que a Melhoramentos quer desmatar. Depois de analisar o parecer dos técnicos, a cúpula da Secretaria do Meio Ambiente e do IAP decidirá se autoriza o desmate. Se a proposta da companhia não for aceita integralmente, IAP e prefeitura terão de promover novas negociações com os diretores para tentar chegar a um consenso.


