Longo caminho até a escola
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Vanessa, 12 anos, Renato, 10, e Mateus, 8, ainda são crianças, mas já sabem o que significa sentir saudades. Estudantes da Zona Rural de Assaí (Norte), eles moram separados dos pais desde o início de 2010, quando mudaram-se para o distrito de Pau D'Alho do Sul, com uma tia, em nome do compromisso de concluírem os estudos.
Antes da mudança, os três enfrentaram alguns anos de sacrifício para conseguirem chegar todos os dias, pontualmente, ao lugar por onde passa a Kombi do transporte escolar. A situação enfrentada pelos meninos não é única no Paraná. De acordo com Vítor de Moraes, coordenador estadual de Educação do Campo da Secretaria Estadual de Educação (Seed), a maior causa de evasão nas escolas da Zona Rural é a dificuldade de chegar ao local de aulas.
O casal de trabalhadores rurais Manoel Pedroso Mota e Cleide Jorge Moraes decidiu por não acompanhar diariamente o desenvolvimento dos filhos para garantir-lhes a oportunidade de estudar. ''Cresci no cabo da enxada e não quero o mesmo para as minhas crianças'', disse o pai dos pequenos estudantes.
Moradores de uma fazenda às margens do Rio Tibagi, quase na fronteira com São Jerônimo da Serra, até o ano passado as crianças acordavam às 4 horas para enfrentarem a viagem de duas horas que começava com a caminhada de quatro quilômetros até o ponto da Kombi. Muitas vezes, o pai expôs a família a riscos ao levar os três filhos equilibrados em uma pequena moto. Em outras ocasiões, Vanessa e os irmãos cavalgaram o fiel cavalo Titanic para não perderem a hora.
Nas semanas de chuva, a única solução era ficar em casa. Como consequência, Vanessa reprovou duas vezes e Renato perdeu um ano. Graças à interferência da diretora da Escola Rural Municipal Padre França Wolkers, Helena Galvão dos Santos, os pais decidiram comprar uma casa no distrito onde fica a escola e deixarem a menina e os dois garotos aos cuidados de uma tia. O problema das faltas praticamente acabou.
'Corta o coração'
Na fazenda, Cleide vivencia diariamente os sentimentos de saudade e preocupação com os filhos que voltam apenas nos fins de semana. ''O Mateus é pequeno e chora para não ir embora. Corta o coração da gente, mas sei que é o melhor para ele.''
Manoel, apesar da saudade, fica tranquilo porque sabe que os dois menores ficam na escola o dia todo. A solução foi proposta pela diretora Helena, que assumiu a responsabilidade de manter os meninos ocupados durante o horário de trabalho da tia para não expô-los a riscos.
Analfabeta, Cleide acredita que a educação faz falta até mesmo na realização de pequenas tarefas do dia a dia. ''É difícil para me comunicar. Tem horas que não entendo o que meus filhos falam'', lamentou. O pai acrescentou que os filhos mudaram muito, estão mais desenvolvidos e sempre ensinam coisas sobre ecologia e meio ambiente. ''Estou batalhando para vencer essa primeira etapa, mas minha vontade e que todos eles cheguem à faculdade''.
O esforço da família está sendo recompensado. Vanessa, que quer ser professora, esta indo tão bem que já não precisa mais das aulas de reforço escolar. Renato, cujo sonho é ser médico veterinário, venceu os conteúdos da série atual e passará por uma reclassificação que garantirá vaga na quarta série. E o pequeno Mateus, que pretende ser policial, obteve a primeira vitória da vida escolar quando, finalmente, conseguiu se alfabetizar.


