Em 1935, quando ainda nem explodira a 2 Guerra Mundial que colocaria o mundo em trincheiras opostas, a empregada doméstica Maria Rosa, então com 21 anos, já se sentia dividida: casar com Palmiro, um dos filhos do padrasto, ou com Lindolfo, colega de trabalho e grande amigo?
Ela escolheu o segundo, para surpresa do próprio lavrador que mal sabia estar no páreo. E para a nossa surpresa, o casamento sacramentado em 20 de janeiro de 1936 numa capela de Sertanopólis (40 km ao norte de Londrina) ainda perdura. Atualmente, o casal vive numa simpática casa no Jardim Bandeirantes, Zona Oeste de Londrina.
Com 71 anos de união - comemorados no último sábado com a tradicional visita à capela matrimonial - Maria Rosa Pereira Magalhães, 92, e Lindolfo Moreira Magalhães, 93, estão muito perto dos recordistas nacionais. Segundo o Rank Brasil, o nosso Guiness, os paulistas Carlina de Azevedo Carvalho, 99, e Raul de Andrade, 97, detêm o título de casamento mais duradouro na atualidade, chegando a 75 anos (Bodas de Brilhante) em maio próximo.
Para quem acredita que só um romance hollywoodiano explica tanto tempo de matrimônio, o casal de Londrina oferece uma nova visão. Com muita lucidez e sem floreios, o marido conta que Maria Rosa casou com ele porque ansiava deixar o sítio onde os dois trabalhavam, mas não queria ir solteira. ''Ela era doméstica na casa do nosso patrão, eu lidava na lavoura. A gente não tinha interesse em namoro, convivia como dois irmãos. E na verdade continuou a mesma coisa depois que a gente casou'', revela.
O senhor chamaria esse sentimento de amor, seo Lindolfo? ''Acho que sim, senão a gente não conseguia viver tantos anos juntos'', confirma, apenas observado pela esposa. Maria Rosa tem audição fraca e, curiosamente, mesmo que a reportagem fale alto com ela, é só o sussurro do marido que ela atende. Então não é amor o homem se tornar o ouvido da mulher quando o próprio ouvido falha?
E o que dizer da dor na coxa esquerda que dona Maria Rosa misteriosamente adquiriu logo depois que seo Lindolfo ficou com problema na... coxa esquerda? ''Por castigo, ele fica doente e eu também fico!'', ela brinca. Castigo nada: só pode ser amor. O mesmo que explica 71 anos de fidelidade, atestados sem pestanejar pelos dois. Setenta e um anos sem brigas, ''só discussãozinha que quando acaba a gente nem sabe mais por que começou'', ele garante.
E ainda há espaço para ciúmes, embora, aos risos, os dois divirjam nesse ponto. ''Ciúmes? Nossa! Ele é meu marido, tenho que ter. Se não tiver ciúmes, não tem amor'', afirma. ''Quem tem ciúme, não tem confiança. E eu nunca dei motivo para desconfiar'', rebate o marido.
Na falta de fortunas, o casal parece ter deixado, em vida, a herança da perenidade matrimonial. Entre os quatro filhos - dos oito que tiveram, metade morreu ainda criança - não há nenhum registro de separação. A mais velha nasceu no mesmo ano do casamento dos pais, em 1936. Depois dela e dos irmãos, a descendência dos Magalhães já rendeu 13 netos, 9 bisnetos e 2 tataranetos. ''Fico muito feliz de ver meus pais juntos com essa idade. Embora o mundo hoje seja outro, eles são um exemplo para nós'', diz Moisés, que aos 55 anos já beira os 34 de casamento.
O exemplo pode não servir para todo mundo, já que o coração dá rumos inesperados à vida de cada um. Mas ainda que demore um pouco ou leve algumas tentativas frustradas para acontecer, não é nada mal achar um Lindolfo ou uma Maria Rosa a quem se tenha vontade de dar o braço até a eternidade.

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