O crescente medo da violência tem mexido com a rotina dos londrinenses, seja pelo abandono de antigos hábitos ou pela aquisição de novos. É a moça que deixa de frequentar o bar preferido; o pároco que evita sair sozinho da igreja; o franzino que se inscreve na aula de luta; o cão que o dono não leva mais para passear no fim de tarde.
Seja como for, a mudança de comportamento é um termômetro da sensação de insegurança generalizada na cidade. Foi o que levou o professor universitário Reinaldo (nome fictício), 42 anos, a comprar um spray de cloroacetofenona - mais conhecido como spray de pimenta - para carregar no bolso. ''Londrina está de um jeito escabroso, não apenas no que se refere à criminalidade, mas nas próprias relações interpessoais. Já fui assaltado há um tempo, mas só resolvi adquirir o spray depois que um pitboy tentou me agredir no trânsito'', justifica.
Reinaldo encontrou o frasco, menor que um vidro de desodorante roll-on, em um site de leilões na internet. Gastou R$ 60,00 mais o valor do frete para se sentir mais protegido quando sai à noite na Londrina dos sequestros-relâmpago, roubos a postos de gasolina, tráfico de drogas escancarado nos bares. ''Escondo o spray na jaqueta, nem me incomoda. Não sou uma pessoa violenta, não quero matar ninguém. Só imobilizar o bandido'', diz.
Ao contrário do professor, muita gente preferiu abrir mão de lugares que gostava para fugir da violência. ''Tem um barzinho na esquina da minha rua que eu não frequento mais. Pode acontecer alguma coisa no trajeto de uma quadra. Já escutei um assalto acontecendo em frente à minha casa'', recorda a estudante Priscila Derbly, 19 anos. Como os criminosos não fazem distinção na hora de escolher suas vítimas, até o pároco da Catedral Metropolitana, monsenhor Bernard Gafá, mudou sua rotina. ''Eu dirijo, mas não saio de carro sozinho da Catedral à noite. Alguém sempre me traz e me busca'', conta, lembrando que um colega, também padre, já foi assaltado às 5h30 da manhã.
A procura por cursos de luta e defesa pessoal costuma aumentar na mesma medida da violência. Na opinião do treinador de box Miguel de Oliveira, entretanto, é insensato se preparar fisicamente para enfrentar bandidos. ''Temos uma pista de atletismo aqui perto (da escola). Quando alguém me procura querendo treinar para bater nos criminosos, eu mando para a pista. Correr é a melhor estratégia de defesa'', ensina Oliveira, que treina a equipe de box do Londrina Esporte Clube.
Para o advogado criminalista Walter Barbosa Bittar, estudioso do fenômeno social da violência, a sensação de insegurança dos cidadãos pode ser exagerada. ''Hoje a gente tem muito mais 'medo da violência', do que da realidade da violência. Na Alemanha, certa época, os índices de criminalidade haviam baixado, mas as pessoas continuavam se enganando, dizendo que os índices eram absurdos. Isso porque a falta de credibilidade na polícia também gera medo'', explica. Daí a importância do policiamento ostensivo, frisa Bittar, para que as pessoas se sintam mais protegidas.

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