Para a maioria das pessoas tirar férias é sinônimo de um tempo reservado ao descanso, ou de fazer as malas para aquela viagem que promete quebrar a rotina e ventilar o espírito. Para o funcionário público Lavoisier Richard, 42 anos, as férias foram muito mais que isso. Os preciosos 30 dias serviram para realizar um antigo sonho: atravessar o Deserto da Patagônia, no Sul da Argentina, pedalando.
A viagem começou no dia 1º de março. Foram 1.040 quilômetros sobre duas rodas, ou aproximadamente 600 milhas, em 11 dias de desafio. ''Não parei para nada. Cheguei a pedalar 170 quilômetros por dia no meio do deserto, alguns trechos à noite'', conta o ciclista, que voltou à Londrina na semana passada.
Apesar de não ter se proposto a fazer um rally de competição, o objetivo do desafio, intitulado 'Hard Bike Tours', foi praticar o ciclismo em regiões desabitadas e exóticas, em condições adversas. O preparo durou cerca de um ano, com treinos fortes, pedalando de 5 a 6 horas por dia. ''Eu sabia que ia ser difícil. Mas mesmo bem preparado, foi mais difícil do que eu esperava'', conta.
No dia 1º deste mês, Richard e Diney Rodriguez, responsável pelo apoio - ele percorreu toda a viagem em um carro alugado, levando equipamentos de filmagem e fotografia, além de mantimentos e roupas -, saíram de Londrina em direção a Foz do Iguaçu, e de lá seguiram para Buenos Aires. Esta parte do trajeto foi feita de ônibus.
O desafio teve início mesmo no dia 7. A primeira fase da viagem começou na cidade de San Martin de Los Andes, na Cordilheira dos Andes. Nesse trecho, a equipe percorreu 180 quilômetros, enfrentando mais de 100 quilômetros de subida, e trechos de estrada de terra, sob chuva e frio, até chegar à Bariloche.
A segunda e mais longa fase, ''onde a coisa começou a pegar mesmo'', foi a travessia do Deserto da Terra Colorada, que segundo o ciclista tem uma área equivalente a três ''Paranás'', ou 750 quilômetros de extensão.
A Terra Colorada, relata Richard, é uma das regiões mais remotas do mundo, pouquíssimo habitada, com estradas pedregosas, animais selvagens e ventos que alcançam até 60 km/h, em uma temperatura média de 35 graus durante o dia e de 5 graus à noite. ''E não podíamos parar. Cheguei a pedalar 10 horas por dia neste trecho. Não havia luz, o sinal de celular não pegava. Ficamos mais de 300 quilômetros transitando sem ver ninguém, no meio do nada, em um silêncio agonizante'', afirma.
A comida também era escassa. ''Encontramos vilarejos com apenas quatro casas e um boteco. Passamos com água, sucos, chocolates e a comida local, que é à base de batata frita e carne de carneiro. Emagreci 10 quilos, mas não tive problemas de saúde'', relata.
Mas para todo peregrino do deserto existem os oásis. ''No deserto passamos por lagunas enormes, locais fantásticos'', relata. ''Fizemos amizades maravilhosas também, encontramos pessoas simples, muito humanas e que não têm a relação com o dinheiro como a gente tem.''
O terceiro e último trecho da viagem terminou na cidade de Puerto Madryn, na costa do Oceano Atlântico. Na faixa litorânea foram percorridos 110 quilômetros.
E existe uma razão para mergulhar em locais tão adversos, em pleno período de férias? Segundo Richard, sim. Palavras hoje já bem desgastadas pelo frequente uso, como superação e conquista foram esboçadas. ''Foi uma experiência única, não tenho palavras para descrever. A idéia é propor um desafio e superá-lo'', explica. ''A gente tem uma vida que nos tolhe, então descobrir que existem outras vidas, outras paragens, é uma oportunidade de vencer riscos.''
Tudo foi filmado e fotografado, conta o ciclista. O próximo passo é comercializar o material para financiar a próxima viagem, programada para outubro deste ano. Richard planeja atravessar o deserto do Atacama, ao Norte do Chile, em uma rota de 1.600 quilômetros. A bicicleta utilizada, que teve o patrocínio da indústria londrinense de bicicletas GTBike, será utilizada novamente, avisa Richard. Parte dos gastos da viagem à Patagônia foi paga por comerciantes da zona sul da cidade. Ao todo a equipe gastou cerca de R$ 3 mil. Os interessados em entender melhor o 'Hard Bike Tours' ou ter acesso a mapas, percursos detalhados e fotos podem acessar o site www.patagonia600biketour.com

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