Dono de uma saúde de ferro para um senhor de 87 anos, seo Salvador (nome fictício) viu a vida virar de cabeça para baixo em questão de horas. Começou com um sangramento na boca; logo ele estava internado no Hospital Universitário (HU) com suspeita de leucemia e, então, veio o diagnóstico de dengue.
Sua história é rara: dentre os 413 casos da doença já confirmados este ano em Londrina, Salvador é uma das cinco pessoas que desenvolveram a chamada ''dengue com complicações''. Não se trata de febre hemorrágica, mas é uma forma mais severa do que a dengue clássica e que também pode levar à morte. Mais uma razão para se redobrar o combate aos focos do mosquito Aedes aegypt.
Segundo a gerente de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde, Sônia Fernandes, as complicações podem tanto decorrer de um tratamento inadequado da dengue clássica como acontecer desde o início. ''É preciso ficar atento para os sinais de alerta e agravamento do quadro, como dor abdominal, muito vômito ou queda brusca de temperatura. Se o paciente chega ao 5º ou 6º dia da doença sem febre, com 35 graus, por exemplo, é um grande indício de que vai complicar'', alerta. Em geral, a febre de dengue dura sete dias.
As possíveis complicações da doença são de tipos e graus muito variados. Podem ocorrer alterações neurológicas, disfunção cardio-respiratória, insuficiência hepática (fígado), hemorragia digestiva e redução do nível normal de plaquetas no sangue. Esta última, conforme Sônia, foi a mais observada nos cinco casos londrinenses. Os pacientes eram anteriormente saudáveis e, à exceção de Salvador, eram todos adultos jovens.
Com menos frequência, a dengue com complicação também pode se traduzir em delírios, sonolência, depressão, irritabilidade, psicose maníaca, demência, amnésia, coma e até paralisia dos membros inferiores. ''A paralisia é um quadro reversível, mas a pessoa pode precisar de fisioterapia para se recuperar'', observa.
Os estudos sobre a doença ainda não apontaram por que determinadas pessoas desenvolvem formas mais graves, enquanto outras ficam incólumes após adquirir o vírus. Sônia lembra que até a dengue clássica pode matar, especialmente se o doente tiver condições prévias que o debilitem, como câncer, diabete, doenças renais crônicas ou Aids.
Embora a dengue clássica seja ameaçadora, apenas 5% a 10% das vítimas chegam a requerer internação, de acordo com a gerente. Em geral, o paciente não passa mais que três dias internado. Mas seja no hospital ou em casa, a recuperação plena é demorada. Na maioria dos casos, a pessoa passa cerca de um mês sentindo desânimo e muito cansaço. ''Não raro, leva até 90 dias. Durante esse período, o paciente pode ficar com sintomas como distúrbio de memória e queda de cabelo.''
Além dos 413 casos confirmados até a última sexta-feira, a Saúde está investigando 726 suspeitas de dengue em Londrina. Outros 1.173 já foram descartados. Calcula-se que para cada caso de dengue clássica haja outras 10 ocorrências de dengue sem sintomas.

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