Londrina terá Centro Dia para moradores de rua
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quinta-feira, 02 de maio de 2019
Pedro Marconi - Grupo Folha
Integrante da pesquisa, apresentada nesta semana na sede do MP, professor Fábio Lanza acredita que é necessário trabalhar com políticas públicas
Seja por meio de ações pontuais ou grandes intervenções, especialistas e implicados na pesquisa sobre a população de rua de Londrina defendem o desenvolvimento de políticas públicas efetivas para conseguir tirar estas pessoas deste contexto. “Temos que trabalhar com políticas públicas, porque elas permanecem. A política tem que ser consolidada e independe de quem governa. Não adianta termos ações só bem intencionadas, como existem em Londrina, porque estas ações acabam”, adverte Fábio Lanza, docente e mestre em ciência sociais.
Para o assistente social do MP (Ministério Público), Marco Antônio da Rocha, apesar do tema ser relacionado à Assistência Social, ele é muito mais amplo, pois abarca outras áreas do poder público. “Nós precisamos de políticas intersetoriais, porque somente com assistência social não se enfrenta um problema que é multicausal. Precisamos de uma política de trabalho, emprego, habitação, saúde, cultura, para que possamos enfrentar todas as causas que levam as pessoas às ruas”, elenca, lembrando que a cidade tem um comitê intersetorial Pop Rua, que reúne representantes de diversos segmentos.
"É necessário seguir um caminho que dê resultados"
Jacqueline Micali, secretária de Assistência Social -
Secretária municipal
de Assistência Social, Jacqueline Micali, destacou que não é
intenção do município, neste momento, ampliar a quantidade de
vagas em abrigos como forma de política pública, já que outras
propostas podem ser colocadas em prática. “Formar mais acolhimento
não é opção, pois temos perfis diferentes de moradores de rua.
Nossa linha de trabalho é aumentar a abordagem social, para isso
contratamos 25 orientadores, estamos criando uma equipe específica
para crianças e adolescentes na rua, montando um Centro Dia junto
com outras políticas. Tudo para que possamos fazer abordagem
diferenciada, que não existe hoje. É por meio disso que vai se
pensar em outros tipos de ações”, defende.
Estas atividades, segundo ela, estão sendo feitas a partir da pesquisa, que a pasta já tinha conhecimento de forma parcial dos dados. “Por um lado a sociedade anseia por respostas, o que está certo, mas não adianta tirar os moradores de rua de um lugar e colocar em outro. É necessário seguir um caminho que dê resultados.”
'Somos pessoas'
R., 30 anos, tem esposa e dois filhos. Está nas ruas há muitos anos, mas alterna períodos em casa. “Sempre vejo meus filhos e minha mulher é enfermeira, cuida de idosos”, conta. Mas as drogas são um grande problema para ele. O crack e o álcool destruíram sua vida. Viver nas ruas, diz, é ficar exposto a riscos e sofrimento, mas para os albergues ele só vai durante o inverno. “Tem mais gente usando drogas lá dentro do que fora. É horrível aquilo”, classifica.
O homem relata que ganha a vida vendendo flores que ele mesmo confecciona e sugere que a prefeitura construa um barracão onde os moradores de rua poderiam passar a noite, com camas e chuveiros. “Em São Paulo tem isso. Funciona. No Centro POP só tem três duchas. Não dá para todo mundo.” Ele também critica a ação do poder público, que força os moradores de rua a deixarem a região central da cidade recolhendo seus pertences, mas lembra que ele é a parte mais fraca de uma estrutura complexa. “Se querem que a gente deixe as ruas por que não acabam com os traficantes que vendem drogas para nós? Enquanto não acabarem com os traficantes, não vão acabar os moradores de rua porque é pelas drogas que estamos nessa condição.”
Já L., de 31 anos, tem família em Londrina, mas não mantém contato com nenhum parente. “Minha família não me dá as costas, mas eu não procuro ninguém. Não quero.” Ele já passou por uma clínica de reabilitação, onde ficou por um ano. Fora do internamento, foram mais três anos sem usar drogas. Mas uma desilusão amorosa o fez retornar para o vício. “Reconstruí toda a minha vida, mas me envolvi com uma mulher e ela pisou bastante em cima do que me doía. Quem tem problema com drogas tem um monte de carência e ela se aproveitou disso.”
"Mas só porque a gente vive na rua tem que andar sujo?"
Morador de rua -
Agora, L. espera conseguir outra vaga em uma clínica para tentar mais uma vez a reabilitação. “Estou usando drogas demais, estou bebendo demais, sou compulsivo, não consigo me controlar.” Enquanto não surge a vaga, ele reveza os locais onde dorme para evitar o contato com assistentes sociais, guarda municipal e polícia. “Costumo dormir lá para baixo, perto do Centro POP, que é para ninguém me encher. As pessoas reclamam que a gente bagunça tudo, que toma banho e deixa as roupas penduradas. Mas só porque a gente vive na rua tem que andar sujo? Somos pessoas.” (Simoni Saris/ Grupo Folha)