Londrina tem mais de 300 famílias em ocupações
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Antoniele Luciano<br> Reportagem Local 
Londrina - O município de Londrina começou 2015 com mais de 300 famílias acampadas em áreas urbanas. No Jardim São Marcos, na zona sul de Londrina, é só se aproximar da Rua Rainha do Céu que o som de martelos em estacas e tábuas indica onde pelo menos 20 famílias montaram barracos cobertos por lonas no bairro. Com novos adeptos chegando ao longo do dia, a maior parte delas já ocupa a região há pouco mais de uma semana, reforçando as estatísticas sobre ocupações no município.
O terreno ocupado no São Marcos pertence à Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) e já foi palco de outra ocupação semelhante, deflagrada há cinco anos. Na iniciativa anterior, as famílias envolvidas foram realocadas em casas populares, lançadas pelo poder público no Jardim Nova Esperança. Agora, a expectativa é que ocorra o mesmo, observa um dos moradores da ocupação, o autônomo Irecê Martins de Paula, de 34 anos. "Só queremos reivindicar o nosso direito de moradia", define.
Segundo ele, o número de famílias que participam da ocupação se aproxima de 80, quantidade maior do que o calculado pela própria Cohab. O autônomo conta que a decisão de aderir ao movimento foi motivada pelo peso do aluguel no orçamento. São R$ 350 pagos em um casa no Jardim Jabotá, bairro da mesma região. Irecê acredita que com a liberação da área pela Prefeitura, ele e a família possam dar adeus ao aluguel.
O mesmo espera o pintor Lucas Vitório, de 26, que também montou um casebre perto do erguido por Irecê. "É uma área vazia em que um monte de gente joga lixo e estamos precisando de moradia. Eu não entendo. Se o povo fala que precisa de habitação, o poder público tem que solicitar o que o povo precisa", defende.
Vitório paga R$ 600 de aluguel numa casa de três quartos. No imóvel, vivem ele e mais cinco pessoas. O pintor diz que não espera uma casa popular pronta. O terreno, para ele, já seria suficiente. "Nós mesmos podemos construir, somos capazes de fazer isso", afirma.
Para a faturista Adriana Fernandes, de 23 anos, aderir à mobilização foi a saída encontrada por ela e o esposo para tentar sensibilizar as autoridades locais para o problema da casa própria. Desempregados, os dois moram com as duas filhas há um ano na casa da sogra. Adriana diz que se inscreveu na Cohab para tentar obter uma casa popular, mas que a espera já dura anos. "Ficamos fora do raio de abrangência das casas novas do (Conjunto) Jamile Dequech e acabou não saindo para gente de novo", pontua.
De acordo com o presidente da Cohab-Ld, José Roberto Hoffmann, além dos critérios de seleção, como constituir família em situação de risco ou ser mulher chefe de família, os candidatos às casas populares precisam morar em um raio de até 2,5 km de distância do novo empreendimento habitacional. A medida, explica, é importante para evitar o deslocamento de populações dentro do município. Ainda assim, é possível que a exigência seja revista mais adiante pelo Conselho Municipal de Habitação. "Por 500 ou 600 metros de diferença neste raio, algumas famílias deixam de ser beneficiadas", assinala.
Hoffmann argumenta ainda que o tempo de inscrição não vale como critério de seleção para a casa própria, mas sim o grau de vulnerabilidade das famílias atendidas. No caso da ocupação do Jardim São Marcos, inicialmente a previsão era executar uma reintegração de posse da área. Ontem, no entanto, uma reunião foi feita com uma comissão de moradores. A expectativa agora é que os envolvidos deixem o local nos próximos dias. "Acreditamos que saiam, com a chuva que está eles não têm condições nem de permanecer lá. Explicamos a eles que há empreendimentos planejados para o entorno", completa o presidente da Cohab.
Hoje, conforme ele, o déficit habitacional de Londrina gira em torno de 45 mil famílias. Deste total, 15 mil têm renda de até R$ 1,6 mil. As demais ocupações em curso no município estão no Jardim São Jorge, uma área particular que abriga cerca de 200 famílias, e em um fundo de vale da Rua Ana Caputo, no Conjunto Maria Cecília, com mais 100.


