Londrina registra alto índice de meninas grávidas
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domingo, 18 de novembro de 2001
Maranúbia Barbosa<br>De Londrina 
A falta de perspectivas para o futuro leva muitas adolescentes de classes menos favorecidas a ficarem grávidas cada vez mais cedo. O filho, para muitas adolescentes, é encarado como um projeto de vida. As afirmações, feitas pelo ginecologista e sexólogo mineiro Gerson Lopes, que esteve em Londrina durante o 8º Congresso Paranaense de Pediatria, encerrado ontem, confirmam o alto índice de meninas grávidas na cidade. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, os primeiros 10 meses deste ano, das 5.920 mulheres grávidas, 1.060 têm menos de 19 anos, o que representa um percentual de cerca de 18%. No ano passado, do total de 7.897 mulheres grávidas, 1.499 eram adolescentes, um porcentagem de cerca de 19%.
A gravidez entre as adolescentes, segundo o médico mineiro, é um problema para todas as classes sociais. ''É um mito acreditar que acontece mais entre as famílias pobres.'' Nas classes mais abastadas, em função da facilidade financeira, o aborto é um recurso extremo bastante utilizado. Entretanto, diz Lopes, a falta de pesquisas específicas sobre o assunto impede que os profissionais da área emitam opiniões conclusivas.
De acordo com a experência adquirida enquanto consultor do Fundo das Nações Unidas para as Populações, Lopes afirma que muitas meninas optam pela gravidez como forma de se libertarem da tutela social. Em outros casos, a gestação precoce é uma maneira de se legitimar a sexualidade. A curiosidade, ou ainda a agressão aos pais são outras causas apontadas pelo sexólogo.
O casamento decorrente de uma gravidez, segundo Lopes, é uma alternativa que nem sempre dá certo. ''De cada cinco casamentos, quatro deles acabam antes dos primeiros cinco anos'', informa o médico. As sequelas emocionais e físicas da gravidez na adolescência, e mesmo de um aborto nessa fase podem ser carregadas para o resto da vida. ''Dificuldades orgásticas e outros bloqueios são comuns.''
Os adolescentes, de um modo geral, não são promíscuos, diz Lopes. Eles namoram, ou ''ficam'' com uma pessoa mantendo uma certa fidelidade. ''É a monogamia seriada'', define. A imaturidade psicológica leva os meninos e meninas a imaginarem que estão imunes a doenças sexualmente transmissíveis, que a gravidez não vai acontecer, agindo com o chamado ''pensamento mágico''. Por conta disso o uso de preservativo nessa fase não é tão popular. Contudo, ressalva Lopes, a maioria dos adolescentes de hoje está informada sobre os riscos de doenças e gravidez.
Moradora do Assentamento Santa Fé, Juliana Campos, 16 anos, já é mãe de um bebê de sete meses. Ela garante que sabia dos riscos da gravidez mas achou que não fosse acontecer. A maternidade, segundo a adolescente, mudou totalmente sua vida. ''Parei de estudar (na 5 série) para cuidar dele.'' Juliana conta que teve medo da reação da família, mas nunca pensou em abortar. Ela, que mora com o pai da criança, diz que aconselha as amigas a evitarem a gravidez. Depois da experiência, Juliana e o marido, que tem 23 anos, também decidiram evitar outros filhos, pelo menos por enquanto. ''Coloquei um DIU (Dispositivo Intra-Uterino).''
O ''pensamento mágico'' não evitou que D.M., de 17 anos, ficasse grávida. A garota, que está com seis meses de gestação, também achou que não fosse acontecer com ela. D.M. e o namorado, de 20 anos, com quem pretende se casar, ''reagiram mal'' à vinda do bebê, mas descartaram o aborto. Os estudos estão fora dos planos de D.M., que deixou de ir à escola na 1 série do colegial. O filho, que ela ainda não sabe o sexo, representa um projeto concreto diante do futuro abstrato. ''Vai dar certo'', afirma, confiante.


