Londrina perdeu uma posição, mas não a força
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sábado, 10 de março de 2007
Widson Schwartz<br> Especial para a Folha 
Por ser um fato previsto, muita gente esperou o ''relógio demográfico'' do IBGE assinalar que Londrina perdera a posição de terceiro município mais populoso do Sul para Joinville (SC), em agosto de 2006. Antes, porém, o município catarinense havia-se convertido no terceiro pólo industrial da região, superado apenas pelas capitais Porto Alegre e Curitiba, avanço considerado, por lá, mais relevante.
Quanto a Londrina, a ''ultrapassagem'', por 1.555 habitantes (496.651 contra 495.096), não é um retrocesso. Contrariando a vagareza de obras públicas que parecem abandonadas, a cidade não está parada e pelo que acumulou, desde os melhores tempos, supera Joinville em indicadores importantes, que lhe dão melhor qualidade de vida. Londrina perdeu posição, mas não a força e pode aumentar o ritmo brevemente, desde que se mudem as políticas públicas, afirma um atento conhecedor.
Dos 100 melhores municípios brasileiros em infra-estrutura, Londrina é o 20º, conforme estudo da Consultoria Simonsen Associados para o Anuário Exame 2006-2007 - Infra-Estrutura. Entre os 267 municípios com mais de 100 mil habitantes analisados, classificaram-se os 100 com as melhores combinações levando em conta dez conceitos básicos, recebendo Londrina 131,86 pontos, à frente de Joinville e Sorocaba (SP), juntos em 21º lugar com 131,40 pontos.
O presidente do Clube de Arquitetura e Engenharia de Londrina (Ceal), Nelson Ricardo Brandão, observa que dos 19 municípios à frente, 12 são capitais, o que coloca Londrina em oitavo lugar no interior.
Por ser uma das maiores deficiências nacionais, o índice de saneamento básico é o indicador mais substancial, pois os municípios serão cobrados num ''contexto mundial em que há cada vez mais pressão pela preservação do meio ambiente'', disse à revista Exame o coordenador da pesquisa, Antônio Vialle Cordeiro. ''Outro ponto crucial é como as cidades estão se preparando para lidar com uma economia cada vez mais globalizada'', observou. ''Portos, aeroportos, ferrovias, estradas e frota de veículos são fundamentais para escoar a produção. Sem isso, a economia não cresce.''
Não foi possível ter-se acesso ao resultado por inteiro da pesquisa, mas outras fontes permitem comparações, revelando supremacia absoluta de Londrina em saneamento básico. O que esta cidade construiu e entregou à Sanepar, em 1973, só agora Joinville está fazendo, após não renovar a concessão com a Casan (Companhia de Água e Saneamento de Santa Catarina) em 1995. A Agência Municipal de Água e Esgoto (Amae) informa que a rede coletora de esgoto em Joinville limita-se a 14 quilômetros quadrados; as 10.434 ligações (21.422 economias, das quais 16.247 residenciais) correspondem a 70 mil usuários, aproximadamente 16% da população, apenas.
Em Londrina, conforme a Sanepar, são 82.374 ligações de esgoto (128.230 economias) servindo 83,64% da população, com tratamento de 100% do volume.
Já o abastecimento de água abrange quase toda a população urbana de Joinville, com 117.839 ligações (147.536 economias); enquanto em Londrina são 128.653 ligações (178.532 economias), incluindo as sedes distritais. Isto significa que 99,98% da população encontram-se servidos. Economias são os endereços residenciais e comerciais; aparecem em maior número porque uma só ligação pode atender a vários, por exemplo um condomínio de apartamentos.
Situada à margem da BR-101 - Rodovia do Mercosul - , Joinville dispõe de melhor infra-estrutura de transportes, de acesso aos portos de São Francisco (a 40 km), Itajaí (80) e Paranaguá (130). Embora o próprio aeroporto seja modesto, há o de Navegantes a 80 quilômetros, o de Curitiba a 100 e o de Florianópolis a 170.
Por sua vez, Londrina não tem sequer um ''porto seco'', nem é servida por rodovia inteiramente duplicada; o aeroporto carece de mais 300 metros de pista e não dispõe de ILS, equipamento auxiliar de pousos.
Industrialização consolidada, Joinville tem mais cursos para qualificar mão-de-obra, 66 em nove estabelecimentos, havendo a participação direta das indústrias. Já o ensino superior, compreendendo 78 cursos em 10 escolas com 18.323 inscritos, expandiu-se menos em comparação a Londrina, onde são 31 mil matriculados em 15 estabelecimentos (universidades e institutos).
Joinville tem melhor distribuição de renda, indica o Produto Interno Bruto (PIB) de 2003, que apontou pouco mais de R$ 5,2 bilhões, estabelecendo renda per capita de R$ 11,2 mil (números arredondados). No mesmo ano, conforme o IBGE, o PIB de Londrina atingiu R$ 4,080 bilhões e a renda per capita, R$ 8,620 mil. Em 2004, o PIB de Joinville elevou-se a R$ 6.491.909,00 e a renda per capita, a R$ 13.582,00. O PIB mais recente de Londrina não está disponível.
Talvez possa parecer incrível aos mais céticos após a perda do terceiro lugar, mas o orçamento da Prefeitura de Londrina realizado em 2006 - de R$ 508,47 milhões, sendo R$ 406 milhões receita própria -, superou o de Joinville, de R$ 414 milhões, segundo a assessoria de comunicação social do município. Do orçamento global em Joinville, apenas R$ 187 milhões constituem a receita própria, embutidos 35% de ICMS. O peso deste imposto em Londrina é de 23%. Joinville gasta apenas 43% da arrecadação com funcionalismo; Londrina despende 56,61%.


