Londrina no trânsito
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terça-feira, 17 de setembro de 2002
Ana Setti<BR>Reportagem Local 
Tal qual no supermercado, aqui a gente pega um carro, carrinho, carrão e sai. Daí em diante, seja o que Deus quiser. Afinal, o ''outro'', sob essa perspectiva, não passa de um mero detalhe. O motorista da frente, por exemplo, que segue sossegadamente pelo meio da via, pode resolver de repente, assim como quem não quer nada, virar à direita ou à esquerda, ou parar abruptamente. Sinal? Aviso prévio? Para saber, preferível pedir ajuda às cartas... da cigana.
Se o caso é passar de um lado para o outro da via expressa e, para isso, civilizadamente, damos sinais, fazemos gestos dramáticos, impregnamos com fervor e lágrimas a mímica de nosso pedido, ninguém dá passagem e ainda nos olham com desdém. Quem mandou se meter em situação mais humilhante? Cavalheirismo? Educação? Cordialidade? Talvez essas palavras tenham se volatilizado até mesmo do dicionário.
Quem vem atrás e está com pressa, dá seu recado ''na lata'', sem nenhuma sutileza. Aproxima-se, aproxima-se e, pelo espelho retrovisor, dá para notar que gostaria de passar... por cima. Alternativas? Qualquer uma, contanto que a escolha seja rápida.
Do pedestre tudo se espera, que nos deixe entrar no estacionamento e faça cara feia por nosso atrevimento de estar ali, justo naquele momento, ou que não nos deixe entrar, avançando na frente do carro, e faça cara feia, porque obviamente não temos a menor noção do lugar que nos cabe na selva automobilística. Na rua, o sinal lá na frente, a faixa de pedestres também, ele prefere a rudeza do enfrentamento carro a carro. Vamos desviando, enquanto a multidão nos pressiona, e evitamos o máximo possível, embora a tentação seja grande, fazer um ''strike''.
Do motorista também tudo se espera, quando se é apenas um pedestre. O melhor é a possibilidade de cortar as unhas dos pés ou diminuir a ponta dos sapatos quando se está parado na esquina e ele faz, com base em cálculos matemáticos precisos, uma curva milimetricamente fechada. O carro lá longe, o pedestre segue tranquilo para atravessar a rua. No meio dela, distingue o som de uma aceleração crescente, visualiza o olhar esgazeado do motorista, a baba que escorre pelo canto de sua boca e, por todos esses fatores preocupantes, desata a correr, sentindo que pintaram um alvo em sua roupa.
No fim, todos paramos no semáforo, sinaleiro, cheio de bossa, em que tentamos acompanhar, com atenção e paciência, o ir e vir das luzes coloridas... verde, amarelo, vermelho. O problema é o torcicolo, inevitável, de quem fica na primeira fila. O sinal está tão mal colocado, na maioria das ruas, que é impossível vê-lo sem movimentos arriscados do pescoço e, se é impossível vê-lo, o que dirá obedecê-lo?


