Moradores de rua, sem família e com problemas de saúde física e mental, não têm, em Londrina, para onde ser encaminhados. O problema, constatado pelo Ministério Público (MP), ficou ainda mais evidente após a interdição do abrigo mantido pela Organização Não-Governamental (ONG) Camor, na semana passada. Em uma chácara próxima à estrada do Limoeiro (Zona Leste), a ONG atendia pelo menos 14 pessoas tiradas das ruas, entre elas dependentes químicos e idosos de saúde bastante debilitada.
O abrigo foi interditado por determinação do MP, após avaliação da Vigilância Sanitária, que detectou condições de insalubridade no local. O atendimento a pessoas doentes também se mostrou impróprio (leia mais nesta página). Com isso, grande parte dos internos tiveram que ser transferidos para albergues da cidade, como a Casa do Bom Samaritano (área central). O problema é que a Casa, além de estar operando próxima ao limite de capacidade, de 70 usuários, também não possui atendimento à saúde adequado.
''Teríamos que dispor de um clínico, que viesse pelo menos duas vezes por semana, uma equipe maior de enfermagem e uma estrutura para oferecer terapia ocupacional aos usuários'', enumera a assistente social da entidade, Maria Luca de Lima. Atualmente, o quadro se resume a dois auxiliares de enfermagem e uma enfermeira, que trabalha no local somente quatro horas diárias. Segundo Maria Luca, ''o espaço físico da entidade é grande, porém mal distribuído, e precisaria passar por uma revitalização total''.
A assistente social admite que, hoje, as chances de reinserção dos usuários do albergue na sociedade são remotas. ''A situação na rua é bem pior, mas para evoluir, resgatar a auto-estima e a cidadania, eles precisariam de uma assistência melhor'', observa. Para o vice-presidente da entidade, José Brene, a Saúde teria que contribuir para a melhoria do atendimento. A participação atual do Município se dá com o repasse de R$ 7 mil mensais ao albergue, através da Secretaria Municipal de Assistência Social. O restante da receita, cerca de R$ 5 mil, vem de doações.
''Entre 70% e 80% dos nossos usuários são doentes mentais. Para cumprir exigências de atendimento da própria Secretaria de Saúde precisaríamos de mais verbas'', reivindica. Brene ressaltou que a situação da entidade vem sendo discutida, há 60 dias, com representantes da prefeitura e do MP. O secretário municipal de Saúde, Sílvio Fernandes, reconhece que o atendimento oferecido em abrigos não é adequado, mas afirma que a Saúde não pode contribuir com verbas ou cessão de funcionários.
''Temos procurado dar o apoio necessário. Dispomos de serviços na área de saúde mental conveniados ao SUS (Sistema Único de Saúde) de acordo com as especificidades, e estamos tentando ampliar o atendimento psicossocial'', explicou. A saída seria, de acordo com Fernandes, o encaminhamento dos usuários para serviços fora das entidades.
Entretanto, o promotor de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais e da Saúde Pública, Paulo Tavares, admite que o Município tem grande dificuldade para encaminhar essa parcela da população para órgãos de atendimento. ''Estamos estudando a possibilidade de instaurar um procedimento administrativo para apurar a realidade dessas pessoas. É evidente que esse segmento enfrenta dificuldades'', assinala.
O promotor destacou que os albergues da cidade estão passando por avaliações para detectar as principais lacunas nesse tipo de atendimento. ''Vamos provocar o Município para que se posicione: ou ele terá que destinar verbas para essas entidades, ou terá que construir uma entidade própria para resolver o problema'', aponta.

mockup