Londrina é o município paranaense com o maior índice de portadores do vírus da Aids contaminados por uso de drogas injetáveis (UDI), quase o dobro da média do Estado e maior do que o percentual do País. Dos 862 casos da doença registrados de 1984 até maio deste ano, 251 pessoas se infectaram por uso de drogas, perfazendo um total de 29%. No Estado, o índice médio de contaminação por drogas injetáveis é de 16,1%, enquanto no Brasil de 14%.
Na cidade, dos 596 homens soropositivos, 188 (31,5%) adquiriram a doença por uso de drogas. No sexo feminino, dos 266 casos de Aids 63 (23,7%) contraíram o vírus também usando drogas injetáveis. Os números absolutos por sexo foram repassados à Folha pela Associação Londrinense Interdisciplinar de AIDS (Alia), enquanto os percentuais são da Secretaria de Saúde do Município.
A diretora de Epidemiologia e Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, Rosângela Alvanham, afirmou que a via de contaminação por drogas injetáveis ainda propicia outras formas de contágio. O usuário de drogas, ao compartilhar seringas, está se expondo a outras doenças, como os vários tipos de hepatite. Além de passar a doença através de seringas, ao se relacionar sexualmente o usuário pode repassar o vírus, formando uma cadeia de transmissão direta e indireta.
Para Rosângela Alvanham, o serviço de saúde deve proporcionar o tratamento ao usuário que pretende deixar o vício, mas se a opção for pelo uso da droga o poder público precisa oferecer formas de proteção e contenção da disseminação de doenças. Segundo ela, a distribuição gratuita de seringas descartáveis é uma das formas de impedir o avanço da epidemia de Aids.
Em cerca de 60 municípios do País, os usuários dispõem de seringas gratuitas. O médico infectologista Marcelo Campos, de Belo Horizonte, ressaltou que esse tipo de programa não expõe o usuário, que passa a procurar o serviço de saúde depois que adquire confiança. Ele esteve ontem em Londrina para participar do seminário ''Uso de drogas e Aids: uma questão de saúde pública''.
Para Marcelo Campos, o vício pode ser um sintoma de problemas diversos ou apenas uma opção da pessoa. Segundo ele, a distribuição de seringas é polêmica porque aborda o conceito do que é lícito e ilícito. ''Não sei se estamos (a sociedade) maduros o suficiente para discutirmos essas questões'', refletiu o médico.
Em Londrina, durante o Carnaval deste ano, a Alia propôs a distribuição de seringas descartáveis, o que foi rechaçado pelo delegado operacional da 10ªNSDP, Jurandir Gonçalves André. Na época, ele afirmou que o fato poderia ser visto como apologia do uso de drogas.
O promotor de Direitos Constitucionais, Paulo Tavares, não vê problemas na distribuição de seringas, desde que o ato seja associado a outras formas de assistência social, médica e psicológica. ''O usuário é um caso de saúde pública, uma vítima'', opinou o promotor. ''Encarcerá-lo é tampar o sol com a peneira.''

mockup