Londrina homenageia profissionais negros atuantes na pandemia
No Dia Nacional da Consciência Negra, prefeitura celebra categorias invisibilizadas diante da crise do novo coronavírus
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
No Dia Nacional da Consciência Negra, prefeitura celebra categorias invisibilizadas diante da crise do novo coronavírus
Laís Taine - Grupo Folha 
Homens e mulheres negros que atuam na linha de frente em combate à pandemia do novo coronavírus em Londrina serão homenageados nesta sexta-feira (20), Dia Nacional da Consciência Negra. A celebração promovida pelo CMPIR (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial) e Gestão Municipal de Promoção da Igualdade Racial será on-line, com premiação a representantes de diversas categorias profissionais.
A presidente do CMPIR, Maria Eugênia Almeida, explicou que não só profissionais de saúde serão lembrados, mas diversas categorias que são invisibilizados na sociedade, como as empregadas domésticas e entregadores. “Devido às cotas, hoje temos mais negros se formando em diversas áreas, mas a grande maioria das categorias dos trabalhos precarizados da sociedade é ocupada por negros. Nós queremos chamar atenção para isso”, declara.
PRÊMIO YÁ MUKUMBY
Empregadas domésticas, entregadores, coletores de lixo, professores, trabalhadores da área da saúde e integrantes do MST (Movimento Sem Terra) terão representantes para receber o Prêmio Vilma Santos de Oliveira - Yá Mukumby. O prêmio carrega o nome de importante líder social e religiosa de Londrina, assassinada em 2013.
A presidente também fala de homenagem póstumas a Matheus Evangelista, jovem negro que foi morto durante operação da Guarda Municipal. “A gente padece muito com a questão do genocídio da juventude negra e neste ano a gente viu muito sobre essa questão, o movimento do ‘Vidas Negras Importam’, porque tem ações que estão se sobressaindo demais”, afirma.
A violência também será abordada no evento, considerando as mortes por confronto com a polícia e aumento do número de mulheres vítimas de violência doméstica e feminicídio. “Durante a pandemia, aumentou muito a quantidade de mortos por abordagens, mortos por confronto, violência doméstica. São essas questões que a gente pensa que tem que refletir sobre o que está acontecendo, pois é um momento muito especial no mundo inteiro e precisamos pensar em como cresce a violência, a impunidade e também falar sobre categorias e profissionais que são invisibilizados”, aponta.
Em todos os anos, Londrina tem promovido eventos durante a Semana Nacional de Consciência Negra, mas por conta da pandemia, o evento teve que ser adaptado. Neste ano, será realizado via transmissão on-line, às 19 horas, no Facebook do CMPIR, aberto ao público, na tentativa de continuar lutando por igualdade. “Não se elimina o racismo por decreto, a sociedade pode ser antirracista na medida que promove políticas de igualdade”, defende Almeida.
Além da presença de representantes de diversos setores profissionais, o evento contará com a participação de autoridades locais e a realização de apresentações culturais. A cerimônia incluirá uma homenagem às vítimas de violência racial e feminicídio, com o objetivo de promover uma reflexão sobre igualdade e justiça.

ENSINO E REPRESENTATIVIDADE
A professora da rede estadual, Lusinete Barbosa dos Santos, 49, fala do Dia Nacional da Consciência Negra e da promoção de eventos que reforcem a importância da luta por igualdade. “É uma oportunidade de reafirmar a luta de nossos ancestrais, o que é o racismo, como combatê-lo e por que combatê-lo. A importância do profissional negro dentro da educação é fazer essa diferença”, defende.
A categoria será uma das homenageadas no evento da Prefeitura de Londrina. No caso dos professores, o trabalho remoto não parou, pelo contrário, as atividades aumentaram. “Aquela imagem de que os professores estão em casa sem fazer nada e que por isso as aulas deveriam voltar, é uma pena”, lamenta. “Nessa pandemia parece que o ódio ao professor aumentou, somos chamados de vagabundos, quando estamos trabalhando muito mais”, acrescenta.
Aos profissionais negros, que precisam reafirmar sua capacidade o tempo todo, o momento é ainda mais complicado. Para além disso, Santos destaca a desigualdade na educação que muitas crianças estão passando, algumas com dificuldade de acesso às aulas, longe de ambiente adequado para os estudos, e que os professores têm lutado para que eles não desistissem.
História de desigualdade já conhecida pela professora. Ela conta que escolheu o magistério porque era a vaga que teria mais fácil acesso na época. Depois, tentou a vaga para duas universidades públicas da Bahia, das quais foi aprovada. Optou por cursar Letras, mas ainda que estivesse em universidade pública, sentiu dificuldade.
“Todo esse processo de mulher, negra, se configura como estudante quando, no sistema de créditos, impossibilitava ter trabalho formal. Eu era pobre, tinha que manter gastos com livros, xerox, transporte, alimentação, fui fazendo ‘bicos’. Tomei conta de criança, fiz faxina, vendia coisas nas universidades... Eu percebo, se eu tivesse só o tempo para estudar, eu teria ido para outro caminho. Tive esse prejuízo, mas consegui concluir”, recorda.
Hoje, a professora vê que os negros ainda ocupam os mesmos trabalhos precários e percebe que na pandemia, além da invisibilidade dessas categorias, houve retrocesso nas questões raciais. “Infelizmente, a sociedade está mais racista e não está tendo vergonha de ser racista, tem orgulho. A vida inteira eu trabalhei no combate às formas de racismo, intolerância, preconceito, meus alunos conseguem entender isso, eu lido com crianças com outra formação, mas hoje, com a pandemia, eles tiveram mais acesso ao que era jogado na rede do que aos conteúdos que a gente passava”, aponta.
Chamar atenção para esses fatos e reafirmar a luta por igualdade racial, para ela, é sempre bem-vindo, mas que no dia 20 de novembro aproveita a oportunidade de que os olhos estão voltados para o tema. “Dia 20 eu reforço tudo aquilo que eu já faço durante o ano, que Zumbi dos Palmares, Dandara, Luiz Gama, que vieram antes da gente, lutaram para que a gente tivesse sociedade mais igualitária, justa”, defende.


