Rose veio a Londrina visitar a sobrinha. Ficou encantada com a cidade. '' Pra quem vive naquela coisica onde eu moro, isso aqui parece capital'' comentava. A '' coisica'' é uma cidadezinha no interior da Bahia.
A sobrinha achava graça no entusiasmo da tia, Rose tirava fotos de tudo, da Catedral, da fachada das lojas Americanas, das barracas de artesanato da praça Marechal Floriano. Insistiu em dar comida para as pombas, tomou 6 cafezinhos enquanto percorriam o Calçadão. ''Gente, é demais, além de tudo aqui faz frio'', elogiou a visitante.
No Lago Igapó, agora cheio, Rose fez poses e chegou a trocar de roupa (dentro do carro) para as fotos. Ficou de queixo caído com a academia de ginástica que a sobrinha frequentava. Na outra tarde, passeou pelo campus da UEL, conheceu o Museu Padre Carlos Weiss e a rua Sergipe. No entanto, foi no shopping que Rose enlouqueceu de verdade. Passou horas olhando as vitrines, entrando e saindo das lojas e tomando sorvetes. Ouviu dúzias de CDs, experimentou casacos, conjuntos e até uma camisola de cetim. À noite, telefonou para a Bahia e avisou que iria ficar ''mais alguns dias''.
Os dias foram passando. A sobrinha, que tinha tirado uma semana de folga, teve que voltar ao trabalho. Mas Rose não tinha a menor intenção de dar o turismo por encerrado. Baiana daquelas expansivas e despachadas, Rose nem sentiu muito a falta da sobrinha. Da primeira vez que ficou sem companhia, Rose veio com a sobrinha até o centro e passou horas na biblioteca; jogou damas e xadrez com os velhinhos, tirou mais fotos no lambe-lambe, tomou garapa no Bosque. Voltou para casa de mototáxi.
No dia seguinte, resolveu ir mais longe. Pediu o carro da sobrinha emprestado, colocou a melhor roupa que tinha e foi para o shopping. Parava de esquina em esquina para pedir informações, sempre rindo. Entrou duas vezes na contramão mas chegou onde queria. Com a tarde inteira para gastar tempo (só tempo porque o dinheiro acabara há dias), Rose se esbaldou. No fim da tarde, já cansada, lembrou de olhar o relógio - tinha combinado pegar a sobrinha no trabalho às 18 horas. Faltavam 20 minutos. Rose se apressou para encontrar a saída. Lá fora, olhou em volta e descobriu, com horror, que não tinha a menor idéia de onde havia estacionado o carro. Pior - não lembrava nem a placa nem a cor do carro. Mas sabia que era um Monza.
Rose andou e andou. O sorriso desapareceu e a alegria da baiana virou irritação. Meia hora e nada do carro. A irritação se transformou em pânico. A sobrinha devia estar cansada de esperar e preocupada. Anoiteceu e o estacionamento ficou ainda mais cheio de carros. Era sexta-feira. Rose entregou os pontos. Tomou um táxi e deu o endereço da sobrinha. No meio do caminho, vasculhou a carteira e juntou R$ 5,00. Teve que pedir dinheiro emprestado para a sobrinha para completar o preço da corrida. Depois, teve que explicar porque voltara de táxi.
A sobrinha e o marido voltaram ao shopping no carro dele. Acharam melhor Rose esperar em casa. Voltaram mais de duas horas depois, cada um no seu carro. Nenhum dos dois quis muita conversa com a tia. Rose entendeu o recado. No dia seguinte, um sábado, pediu para a sobrinha levá-la na rodoviária para comprar a passagem. O dia estava lindo, ensolarado e frio. '' Como eu não reparei nessas lojas no dia que cheguei?'', perguntou Rose. Tomou dois sucos de framboesa com morango e na hora de marcar a passagem quase teve uma recaída: ''Seu aniversário está tão pertinho, né Aninha, eu bem que podia aproveitar e ficar mais uns dias...''. Aninha faz aniversário no mês que vem. Faltam só 18 dias e Londrina é uma grande cidade!

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