Para fazer jus ao status de ''cidade grande'', não basta que um município tenha população volumosa e extensão geográfica. É preciso ter uma estrutura digna de seu tamanho e atender à maior parte das demandas de seus habitantes. Apesar de ser pólo de uma região metropolitana que engloba mais de 650 mil habitantes, Londrina falha em pelo menos um quesito dos grandes centros: a oferta de comércio e serviços 24 horas.
As opções começam a se afunilar a partir das 18 horas, quando a maior parte do comércio londrinense fecha as portas. Até às 22 horas, os consumidores ainda podem recorrer a supermercados, shoppings e locadoras de vídeo. Salas de cinema, restaurantes e pizzarias raramente recebem clientes após a meia-noite. Há algumas alternativas para matar a fome que se estendem pela madrugada: carrinhos e quiosques de lanches, pequenas lanchonetes e a tradicional macarronada do Bar Valentino. São locais, entretanto, que não têm o compromisso de permanecer abertos até o amanhecer ou todos os dias da semana.
Além de algumas farmácias e lojas de conveniência de postos de combustíveis, a reportagem apurou que somente três estabelecimentos permanecem de portas abertas 24 horas em Londrina, atualmente: a panificadora Pátio São Miguel e a esfiharia Habib's, ambas na Avenida Higienopólis (Centro); e o restaurante Norte Sul, que funciona dentro do Terminal Rodoviário, também na Área Central. Há ainda prestadores de serviço que atendem fora do horário comercial, mas somente quando chamados - caso dos chaveiros.
É pouco para uma cidade do porte de Londrina, onde uma grande população de jovens e estudantes oriundos de cinco universidades formam um público potencial para horários alternativos. ''Se houvesse algumas concentrações comerciais funcionando 24 horas, com certeza elas teriam movimento significativo. Hoje, você passa à certa altura da Avenida Maringá às 22 horas e não vê ninguém. Se passa às 2 horas, 4 horas da manhã, está entupido de gente'', ilustra o presidente da Associação Comercial de Londrina (Acil), José Augusto Rapcham.
Apostando nessa clientela, a rede Habib's foi a última a aderir ao sistema 24 horas na cidade. Instalada no Centro há dois anos, a lanchonete está funcionando em tempo integral desde fevereiro último. ''Percebemos que o fluxo de clientes ia até 5 horas da manhã e que seria vantajoso abrir 24 horas. Compensa, porque você vai acostumando o público. Ele sabe que vai encontrar as portas abertas a qualquer hora do dia, vira uma referência'', explica o gerente do Habib's na Avenida Higienopólis, Erivaldo Rodrigues de Matos.
O próprio gerente, que tem 26 anos, se diz um cliente em potencial dos horários alternativos. ''Eu gosto muito de sair de madrugada. Morei em Curitiba, São Paulo, Rio, e nessas cidades você tem várias opções depois da meia-noite. Precisamos de mais conveniências, mercados, cinemas 24 horas'', clama. Para Rapcham, há uma série de serviços 24 horas que Londrina comportaria perfeitamente: supermercado, cabeleireiro, ateliê de ajuste de roupas, loja de presentes, academia e floricultura. ''Hoje você não consegue comprar flores de madrugada nem se telefonar para o dono'', lamenta.
O presidente da Acil lembra que Londrina chegou a ter três panificadoras funcionando 24 horas na Área Central, que provavelmente teriam desistido do sistema por causa da violência. Para combater o problema, Rapcham sugere que os comerciantes se concentrem em mini-shoppings, diluindo os custos de segurança. E afirma que é preciso ''retomar'' a Londrina noturna e das madrugadas: ''Nós saímos das ruas e as deixamos para os marginais''.

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