Londrina discute sua história e sua memória
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sábado, 29 de maio de 2010
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Forjado na relação das pessoas com o espaço e o tempo, o patrimônio cultural de um povo acumula tudo o que há de mais representativo sobre este mesmo povo. Palpável ou intangível, recompõe a história provocando reações e despertando sensações de pertencimento, segurança, ligação intrínseca e de identificação. No entanto, a pressa que acelera mais e mais os ponteiros dos relógios faz, muitas vezes, a máquina do progresso atropelar a história e demolir a memória construída árdua e vagarosamente por gerações. Londrina vive atualmente este estado de coisas: reconhece que precisa preservar os bens mais significativos de sua trajetória mas ainda se questiona como fazê-lo.
Da mesma forma que herdamos de nossos ancestrais e construímos o nosso próprio patrimônio, também somos guardiões, produtores e reprodutores do patrimônio cultural e histórico do lugar onde vivemos que, de muitos jeitos e maneiras, faz referência à nossa própria história. Nos toca, por exemplo, as traquinagens da meninice vivida entre os amigos do bairro, a lembrança da pracinha da matriz toda iluminada para a festa do padroeiro, o rio que enchia de alegria a infância e aquele jeito só nosso de dizer porrta.
Tudo isso é fundamental e precisa ser conservado, ensina a diretora de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, Vanda de Moraes. Ela lembra que Londrina precisa aproveitar o momento de efervescência da discussão sobre a preservação de seus tesouros culturais. A Câmara Municipal aprovou recentemente um projeto que busca a preservação dos prédios dos mercados municipais. Na mesma Casa tramita o projeto do Executivo que cria a Lei de Preservação do Patrimônio Cultural, resultado de mais de dez anos de debates. Recentemente, a alteração radical do desenho do piso de uma quadra do Calçadão uma marca inconteste da cidade suscitou polêmica e, só agora, a Prefeitura resolveu ouvir os londrinenses.
Imaterial
Participante ativa na elaboração do projeto da Lei de Preservação, Vanda diz que a intenção é que este instrumento seja um divisor de águas. A cidade vai contar com um instituto jurídico que permitirá não só trabalhar a preservação mas também lançar mão de ferramentas como o tombamento, construção de inventário sobre o patrimônio cultural e sua atualização sistemática e desenvolver projetos de educação patrimonial.
Embora mais focado no patrimônio material, o projeto quer abarcar todo tipo de bem cultural, até aquele imaterial, como o falar próprio do norte paranaense com seu sotaque característico e expressões como o pé vermelho. Mas somente a sanção da lei não é garantia de que ela será implementada. Isso porque o Município terá, entre outras exigências, que contar com pessoal qualificado para aplicá-la, o que ainda não existe.
Enquanto isso, o patrimônio continua sob riscos. Para citar alguns: a poluição que atinge bens naturais como rios e matas e os lagos urbanos; a deterioração das casas de madeira, símbolos das vilas Brasil, Casoni e Nova; as alterações de prédios antigos representativos de épocas e estilos. Londrina é nova e por esse discurso muita gente entende que não tem história, que não há memória e nada precisa ser preservado. Mas, na verdade, temos uma trajetória de pelo menos 75 anos que merece ser cuidada em vários aspectos.


