CURITIBA


Lonas pretas se integram à paisagem


Sem-terra acampados em frente ao Palácio Iguaçu sentem-se em casa. Governo e MST devem começar a negociar na próxima semana






UM DIA NO
ACAMPAMENTO



Fotos: Mauro Frasson

6h45
O amanhecer no acampamento da Praça Nossa Senhora da Salete, começa com um chimarrão e corte de lenha. Ao redor da fogueira, é preparada a programação do dia, mas também serve para um bom bate-papo


7h30
Todas as manhãs, os sem-terra reúnem-se para preparar o café. Cada um contribuiu com um pouco de dinheiro para compra de pão com margarina. Depois de voltar das panificadoras, acampados como Celina da Graça distribuem para os demais


9h15
O frio dos últimos dias, fez com que algumas crianças do acampamento recebessem um cuidado especial. Por enquanto, 20 crianças tiveram que ser levadas aos postos de saúde municipais, por pequenos resfriados


17h00
Nas poucas torneiras instaladas, as famílias coletam a água dos caminhões pipas, que servirão para preparar as refeições ou para limpeza pessoal. O abastecimento não é o ideal, já que existe uma procura muito grande


12h00
A garoa fina e contínua fez com que as atividades dos manifestantes ficasse restrita às barracas. Poucos foram aqueles que se dispuseram a sair ou passear. Nos dias de sol, parte da praça vira um campo de futebol


17h45
No fim da tarde, o prédio abandonado do Fórum se torna uma sala de reunião para realizar o balanço das atividades do dia. Também, neste mesmo prédio, vaia funionar na segunda-feira a escola dos sem-terra



Israel Reinstein
Os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) completam hoje 13 dias de acampamento em frente ao Palácio Iguaçu, na praça Nossa Senhora da Salete, no Centro Cívico, em Curitiba. As reivindicações principais do MST são a libertação dos 22 líderes do movimento presos em várias cidades do interior e maior agilidade na reforma agrária. A Praça também tem catalizado outros protestos, além da simpatia e antipatia dos curitibanos.
Durante esses dias, foi no Centro Cívico que aconteceram as principais manifestações contra o governo estadual e municipal. Foi com apoio dos sem-terras que categorias como pequenos agricultores e professores conseguiram a aprovação de algumas de suas reivindicações. Além disso, o local serviu para palco de protestos dos servidores públicos municipais e estaduais, estudantes, punks e artista plástico.
A curto prazo, a praça Nossa Senhora da Salete deve continuar concentrando atos reivindicatórios. Porque ainda não existe uma saída negociada entre governo estadual e o MST. De um lado, as lideranças dos sem-terras querem a libertação dos presos para sentar na mesa. De outro, o governo garante a manutenção da política de desocupação de áreas invadidas, embora não tenha feito nenhum despejo desde o início do acampamento. Uma possível solução pode ser conquistada durante a próxima semana, já que o governo estadual espera o anúncio da liberação de recursos do Incra para projetos de assentamento do Paraná.
Com isso, o morador de Curitiba deverá continuar convivendo com o acampamento onde estão 1,2 mil pessoas. A maioria é adulto, já que existem no máximo 250 crianças e adolescentes. Cada um desses jovens, participa das manifestações e também de atividades específicas, ajudando na organização do acampamento. A partir da próxima segunda-feira estará funcionando a escola para 105 alunos do ensino fundamental (1ªa 4ªséries).
A professora Tatiane Maggiaro explica que o plano é montar entre o térreo e o segundo andar das obras abandonadas do Fórum, localizado junto ao acampamento, um centro educacional para crianças e adultos. Como a estrutura de concreto do prédio de 10 andares não dispõe de paredes, os sem-terra planejam erguer parapeitos de bambus para evitar eventuais quedas. Para montar as salas, eles ganharam carteiras escolares da Prefeitura de Curitiba e doação de pessoas.
Os integrantes do MST receberam outras manifestações de apoio. Por exemplo, duas toneladas de roupas foram doadas para os acampados no Centro Cívico, arrecadadas por famílias curitibanas.
Mas não só de doações foi montado o acampamento. As lideranças dos sem-terras pressionaram o governo estadual e municipal para doarem alimentos, remédios e as lonas das barracas. Sob pressão - que inclui até ameaça de invasão do prédio da prefeitura, situado na mesma Praça Nossa Senhora da Salete - foram instalados banheiros públicos, tanques de lavar roupas e caminhões pipas. Para manter esta estrutura sanitária, o município gasta R$ 2 mil por dia, sendo que cada um dos 20 banheiros representa R$ 79,00.
Diariamente são consumidos cerca de uma tonelada de alimentos, entre feijão (300 quilos), arroz (300 quilos), leite (120 litros) e carnes. Estes produtos são entregues pela prefeitura e governo do Estado. Quanto às lonas, a prefeitura doou 30 rolos. Foram montadas mais de 200 barracas, que são dividas por regiões do Estado e assentamentos.
Apesar de caracterizar o MST, alguns integrantes reclamam dos toldos. Com o frio curitibano, durante as noites, as barracas condensam a umidade, formando goteiras. A chuva, freqüente nos últimos dias, também dificulta a vida no acampamento, transformado de um grande lamaçal durante a maior parte do tempo.

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