A demolição do Hotel Cravinho trouxe lembranças do auge à decadência. Entre 52 e 78, ele foi administrado por Hitoshi Morikawa, o mais velho de cinco irmãos. Segundo o taxista Jacis Almeida, que trabalhou como porteiro do estabelecimento no final da década de 60, o local era um tradicional ponto de encontro para viajantes japoneses. ‘‘Lembro que alguns vendiam bebida e ofereciam amostras para provarmos.’’
Hitoshi morreu há quatro anos, mas ficou na memória de muitos como uma pessoa alegre. Almeida disse que o comerciante gostava de reunir amigos e vizinhos para jogar caxeta e bater papo nos finais de tarde. A viúva dele, Dona Rosa, confirma a característica do marido e lembra com saudade das festas em família que aconteciam no hotel. ‘‘Mudei para lá assim que me casei, conheci muitas pessoas e fiz bons amigos, pena que a maioria já morreu. Foi uma época de bastante trabalho, mas compensava.’’
Entre os hóspedes fiéis da família estava Terumi Koga, proprietário da rede Foto Célula. Ele morou no hotel de 59 a 60 enquanto trabalhava com Sussumo Morikawa (irmão de Hitoshi) no Foto Pan, localizado na Rua Sergipe. ‘‘Naquela época, era o melhor hotel da cidade. Eu tinha 17 anos. Lembro que às vezes chegava tarde e sempre tinha um prato de comida esperando por mim.’’
Para a maioria dos comerciantes antigos daquela região a demolição será benéfica. Paulo Bernardino de Melo, 60 anos, trabalha na Rua Minas Gerais há 12 anos vendendo raízes. Ele disse que presenciou várias batidas da polícia no local em busca de drogas e produtos roubados. ‘‘Nunca tive problemas com os proprietários ou clientes do estabelecimento, mas já ouvi muitas reclamações de vizinhos por causa de barulho durante a noite. Acho que um estacionamento aqui será muito útil.’’
A vendedora Lúcia de Menezes, da loja Gaúcha, trabalha no mesmo quarteirão do hotel há 15 anos. De acordo com ela, o hotel desvalorizava muito o comércio da região porque ‘‘além de feio era mal frequentado’’. ‘‘Cansei de ver pequenos assaltantes correndo pelas ruas se esconderem lá dentro.’’
Um dos poucos que não gostou da idéia foi o chaveiro Valdir Aparecido de Souza. A última arrendatária do hotel era sua cliente assídua. ‘‘Abri muitas portas de hóspedes que fugiam sem pagar a conta e levavam a chave deixando todos seus pertences no quarto.’’ A mãe dele vendia salgados e refrigerantes para os hóspedes. ‘‘Espero que o estacionamento aumente o movimento na região’’, comentou.

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