Lobo ou lince? Os especialistas não chegam a nenhuma conclusão
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sábado, 10 de maio de 1997
Vânia Casado Sucursal de Curitiba 
Os ataques que estão assustando chacareiros da região metropolitana de Curitiba não surpreendem os biólogos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Eles têm quase certeza de que as ovelhas têm virado presas de predadores conhecidos na região, atrás de alimento.
Pela descrição do estado em que as ovelhas da chácara Recanto dos Três, de Campina Grande do Sul, foram encontradas, tudo leva a crer que tenham sido mortos por felinos, afirma o biólogo Mauro de Moura Brito, do IAP. Nessa chácara, numa única noite, 25 ovelhas foram atacadas de uma só vez e a ocorrência foi registrada pelo proprietário na Polícia Florestal.
O biólogo do IAP explica que existe uma área de floresta preservada ao redor da região metropolitana, como a Mata Atlântica, e a área de reserva na região Leste do Estado, que constitui um habitat natural para as espécies de onça pintada e suçuarana (puma).
O médico veterinário Willis Amatneeks Júnior, da Emater de Campina Grande do Sul, não acredita que o bicho que está atacando ovelhas na região seja a onça pintada ou puma. Ele concorda que, pelas características dos ataques, sejam felinos, mas levanta a hipótese de ser um lince. O veterinário fez uma investigação no local na sexta-feira, 25 de abril, para constatar novo ataque. Dessa vez, as vítimas foram três gansos da chácara.
Ocorre que a chácara Recanto dos Três é a única da redondeza que tem criação de pequenos animais e fica bem ao lado de uma área fechada de mato. As demais chácaras da redondeza são de lazer. Amatneeks Júnior percorreu a localidade e pegou dois tufos de pêlo de animal na coloração bege, marrom e preto, de aproximadamente sete centímetros, o que indica que é um animal peludo. Além de um lince de porte médio, outra suspeita de Amatneeks Júnior é que se trata de um lobo guará.
Os ataques se registram desde a divisa com o Estado de São Paulo até o município da Lapa, em chácaras localizadas nas proximidades das áreas de floresta, explica o biólogo Moura Brito. Ele diz que as denúncias sobre o ataque de animais selvagens nas pequenas chácaras da região estão aumentando. Antes, elas se limitavam a uma ou duas por ano. No ano passado, porém, o órgão chegou a receber até seis denúncias.
A tese do biólogo Moura Brito é que esses animais selvagens estejam atacando as criações por várias razões. Uma delas pode ser a modificação do meio ambiente, que reduz a disponibilidade de presas, e o animal encontra dificuldades para se alimentar. De acordo com ele, todas as modificações que o homem provoca no meio ambiente, que alteram o ecossistema, influenciam o comportamento do animal. Essas modificações vão da expansão do homem em direção às áreas de floresta ao aumento da criação de gado, até as obras de duplicação na BR-116, que estão sendo executadas no trecho.
Mas o biólogo ressalva não ter condições de avaliar o impacto dessas variáveis no prejuízo ao ecossistema. O aumento das denúncias pode também ser fruto da conscientização dos chacareiros, que, ao invés de matar o animal predador, preferem informar aos órgãos especializados para que sejam capturados.
Conforme Moura Brito, os felinos são especialistas em atacar furtivamente. Eles escolhem a presa e vão sorrateiramente até ela e, num golpe só, quebram o pescoço da presa. Quando são atrapalhados por barulhos de outros animais ou flagrados pelo homem, eles não terminam de atacar, abandonando orelhas decepadas, como foi descrito pelos chacareiros de Campina Grande do Sul. Além disso, esses animais só devoram suas presas em clima de tranquilidade e, se são perturbados, fogem muitas vezes tensos, o que poderia explicar as orelhas de ovelhas envolvidas em mucos (decorrentes de vômito), explica.
Mas tudo isso não significa que os ataques na chácara Recanto dos Três sejam realmente de felinos, ressalva Brito. Para se ter certeza absoluta, seria preciso capturar o animal, embora essa não seja a situação ideal. É que ele defende que o animal selvagem precisa viver no seu habitat.
Para se precaver contra os ataques, os pequenos produtores e chacareiros da região devem adotar providências, como a colocação de sinos no pescoço da criação, o que assusta os animais selvagens e impede sua aproximação. Também as criações devem ser guardadas em galpões protegidos, o que elimina a possibilidade de alimento farto e faz com que os bichos não voltem. A captura, na opinião de Moura Brito, só deve ser feita como medida drástica, em último caso.
O ataque aos animais na chácara Recanto dos Três, em Campina Grande do Sul, foi registrado pela Polícia Florestal no dia 29 de janeiro. Ela apurou a morte de 25 ovelhas e ferimento em outras seis. Os policiais estavam acompanhados de médicos veterinários do Zoológico Municipal de Curitiba (Passeio Público), que deixaram uma armadilha na área para a captura do animal. A armadilha, porém, não evitou o novo ataque no final de abril. Quando há carne fresca no local - como gansos e ovelhas - dificilmente o animal selvagem vai em busca de pedaços de carne deixadas na armadilha, dizem os especialistas.


