Sid SauerJéferson Silva Moraes, 9 anos: R$ 0,40 por oito quilos de lixoA troca de lixo reciclável por um ‘‘vale real’’, que dá direito a compras nas cinco feiras do produtor realizadas toda semana em Campo Mourão, está agitando os bairros da cidade. Ontem, na segunda troca promovida pelo programa ‘‘Lixo é real’’, a fila de participantes chegou a dobrar a esquina. Apenas na primeira meia hora do recolhimento foram arrecadados 850 quilos de lixo.
‘‘A idéia é boa porque a gente não perde mais nada’’, aprova a doméstica Teresa Leal de Souza, 45 anos. Até as 10 horas, ela já tinha vendido 300 quilos de lixo e arrecadado R$ 15,00 em vale com direito a compras nas feiras e ainda tinha mais lixo em casa para pesar. ‘‘Sou a maior lixeira do bairro’’, diz com orgulho. Teresa tem sete filhos e contou com a ajuda de vizinhos para juntar o lixo. ‘‘Só o que ganho trabalhando como diarista não dᒒ.
O programa foi lançado pela Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente há apenas dois meses em caráter experimental em dois conjuntos habitacionais. O sucesso foi tanto que 14 bairros já aderiram ao ‘‘Lixo é real’’ e outros 15 devem ingressar ainda esta semana. Até a Sanepar entrou no programa e já repassou 2,6 mil quilos de papel e ferro-velho.
O programa se desenvolve numa parceria da prefeitura com o Provopar, que paga R$ 0,05 por quilo de lixo. O pagamento é feito em vale que só pode ser comercializado nas feiras do produtor. Depois, o Provopar revende o lixo recolhido para uma empresa especializada em reciclagem e paga os produtores em dinheiro.
Segundo a organização das feiras, a comercialização aumentou em uma tonelada após o início do ‘‘Lixo é real’’. ‘‘E vai aumentar muito mais porque o programa está começando agora’’, comemora o secretário Márcio Nunes. Segundo ele, a prefeitura também lucra com o aumento da vida útil do aterro sanitário e com a economia no pagamento da empresa que faz o serviço de coleta de lixo na cidade, uma vez que a empresa recebe por tonelada coletada.
Quem mais comemora, no entanto, são os moradores. A dona-de-casa Verônica Cazuza da Silva, 57, por exemplo, juntou todo o lixo que tinha no quintal e também saiu recolhendo pelas ruas do bairro. Lotou uma carriola com 27 quilos de sucata e conseguiu R$ 1,35 para gastar na feira. ‘‘Adorei o programa’’, frisa. ‘‘Não vou parar mais de sair recolhendo lixo’’.
BananaO estudante Jéferson Silva Moraes, de 9 anos, foi sozinho vender o lixo para o Provopar, ontem de manhã. A compra é feita no próprio bairro, mas Jéferson precisou de um carrinho usado normalmente na construção civil para carregar o lixo que recolheu desde a semana passada. ‘‘Vou dar o dinheiro para minha mãe e pedir para ela comprar banana’’, disse enquanto estava na fila, esperando a pesagem.
O lixo de Jéferson pesou oito quilos e rendeu R$ 0,40. Ele conta que ficou sabendo do programa através de moradores do bairro e que conseguiu a maior parte do lixo num pasto perto da casa dele. Já a doméstica Maria Angélica Rocha de Souza, 46, usou o programa apenas para se desfazer de uma velha televisão preto-e-branco. ‘‘O tubo de imagem estragou há um ano e eu não tenho dinheiro para mandar arrumar’’, frisa. A TV pesou 25 quilos e rendeu R$ 1,25.

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