Jazigos destruídos, amontoados de entulho, falta de calçamento e arborização, lâmpadas quebradas, fezes de animais, além de camisinhas, roupas usadas e vasos espalhados por todos os lados. Locais que deveriam ser respeitados por homenagear entes queridos falecidos se parecem muito mais com terrenos abandonados. Este é cenário com o qual muitos familiares e amigos de falecidos se deparam quando visitam os cemitérios públicos de Londrina.
A reportagem da FOLHA percorreu os cinco cemitérios municipais: São Pedro e João 23, ambos na Área Central; Padre Anchieta, no Jardim Ideal (Zona Leste); Jardim da Saudade (Zona Norte) e São Paulo, no Aeroporto (Zona Leste) para verificar a situação e conversar com visitantes. Indignados com a situação, vários deles afirmaram ter a sensação de descaso e falta de zelo da administração pelos espaços públicos.
''Várias vezes vi roupas sujas jogadas entre os muros e túmulos, camisinhas usadas e vasos quebrados espalhados. Fiquei ao mesmo tempo triste e enojada com a situação, com a falta de respeito das pessoas pelo que é nosso'', contou a professora aposentada Maria Clara Munhoz, enquanto realizava uma visita o jazigo do pai, irmã e casal de sogros, que estão enterrados no cemitério João 23, há mais de cinco anos.
A professora explica que procura realizar as visitas sempre no período da manhã, pois não se sente segura para andar pelo cemitério à tardezinha. ''A gente quase não vê guardas passando por aqui e muito menos algum tipo de iluminação. Deveria ter alguma ronda e se acontece alguma coisa comigo? Ninguém fica nem sabendo'', enfatiza.
E não são apenas os jazigos que são alvos dos vândalos. Pegadas de terra nos muros dos banheiros, torneiras arrancadas e vasos sanitários parcialmente quebrados evidenciam que o local está esquecido.
Trabalhando há cerca de 35 anos no cemitério, o coveiro Antônio Marques reconhece que a depredação realmente tem acontecido e que a falta de iluminação favorece a atuação dos criminosos. ''Melhorou um pouco com a Guarda Municipal, mas eles ainda conseguem entrar e destruir muitas coisas à noite, porque fica tudo escuro. Acho que se tivesse pelo menos umas três daquelas luminárias grandes no centro do cemitério já ajudaria'', salientou.
Zona Norte
No Cemitério Jardim da Saudade a falta de arborização, gramado e calçamento incomoda os visitantes. Com o chão de terra batido e a falta de árvores é visível o poeirão que se levanta com a movimentação de pessoas.
A vendedora Bruna Dias costuma visitar o túmulo do irmão que está enterrado no local há mais de 4 anos e conta que fica chateada por ver o abandono. ''Não precisa nem dizer, né? Olha a situação que está isso. Fora a sujeira, você não consegue nem ficar alguns minutos debaixo desse sol quente. Não tem árvore para refrescar. Nenhuma sombra.''
A falta de calçamento é também uma das reclamações de visitantes e funcionários do Cemitério São Paulo. Segundo o coveiro Benedito Moreira, há vários anos eles pedem cobertura asfáltica na entrada do espaço, mas até agora nenhuma providência teria sido tomada. ''Dá pra ver as pedras se soltando quando a gente limpa, já reclamamos várias vezes, mas até agora ninguém fez nada'', relata.
Em meio ao amontoado de entulho e lixo que se acumula em um dos muros que rodeiam o Cemitério São Pedro, a presença de uma enorme placa alertando sobre os cuidados para evitar a proliferação do mosquito transmissor da dengue chega a ser irônica. São sacos plásticos, cadeiras quebradas, pedaços de imagens e de túmulos. Tudo bem ao lado de jazigos que recém-construídos.
''Eu acho que a Acesf tem recurso. Esse local poderia estar melhor cuidado, mas não está e o resultado é esse. Ter que ver tanto entulho bem ao lado do jazigo da minha filha'', contou a dona de casa Ivone Félix.
Segurança
A insegurança é também reclamação de funcionários, visitantes e até da Guarda Municipal quando se referem ao Padre Anchieta. Segundo um guarda que não quis se identificar, ele evita passar pelo cemitério da Zona Leste. ''A gente evita ir até lá, porque é um risco para nós. Não temos armas, seria uma loucura fazer isso'', contou.
Enquanto isso, a funcionária Maria Belisário Crispim, que trabalha há 12 anos na limpeza particular de jazigos, revela que diariamente encontra um ou outro túmulo sem os puxadores, placas ou as imagens de bronze. ''A gente se sente insegura de ver que esse meninos entram a hora que querem e fazem o que querem também'', afirma.

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