Lixo é depositado junto a manancial
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de janeiro de 1997
Paulo Pegoraro Sucursal de Cascavel 
Edson MazzettoAbandonoPedro Viana, que mora perto da área, e a guarita que a prefeitura montou para abrigar vigia
Lixo de todo tipo, inclusive residencial e industrial, está sendo despejado criminosamente em uma área de fundo de vale, próxima às nascentes do Rio Cascavel e lago do Parque Ecológico, que formam o principal manancial de abastecimento de Cascavel. No lixão a céu aberto são despejados dejetos de particulares, empresas de remoção de entulhos e até mesmo pela prefeitura, segundo relatam moradores vizinhos, obrigados a conviver com moscas, roedores e mau cheiro.
O lixão localiza-se na área central, no final da Rua Pato Branco e a poucas quadras da Avenida Brasil, a principal da cidade. A área é de declive em direção às águas e, como fundo de vale, de preservação obrigatória, onde sequer poderia haver construções. No ano passado, a prefeitura chegou a instalar uma guarita no local e a manter um vigia, mas ele não impedia os despejos, segundo vizinhos. No final de novembro, o guardião foi retirado, permanecendo apenas a guarita.
Ontem mesmo ocorreram novos despejos, segundo Pedro Viana, 58 anos, oito filhos, vizinho mais próximo ao lixão. Ele relaciona os nomes de praticamente todas as empresas que fazem remoção de entulhos na cidade, cujos caminhões tem visto fazendo descargas.
Ele também afirma ter visto caminhões da prefeitura várias vezes. Viana diz que reclamações feitas pelos moradores não deram em nada, e agora, tentando minorar os problemas, diariamente espalha fogo no lixo, tentando reduzir os montes.
Área é de fundo
de vale e a
preservação
é obrigatória
Pelo menos uma indústria de bebidas também faz despejos, mas não é possível identificá-la porque os resíduos industriais - plásticos, rótulos e outros materiais - são moídos e compactados. Efluentes destes materiais e do lixo domiciliar, facilmente carregados pelas águas da chuva, podem estar colocando em risco o manancial de abastecimento, atingido também por grande assoreamento por falta de proteção das margens, onde praticamente inexiste vegetação que poderia servir como barreira.
A Sanepar extrai diariamente até 40 milhões de litros de água no Rio Cascavel. Em algumas amostras já feitas o número de coliformes fecais (dejetos humanos ou animais) foi ultrapassado o limite máximo aceitável, de 1000 por 100 ml de água, chegando até mesmo a 6.600 por 100 ml. Também chegaram a ser constatados metais pesados (alumínio, chumbo, mercúrio e outros) lançados por indústrias, com grande frequência e elevadas concentrações, indicando não haver tratamento adequado dos efluentes industriais.
Por não atender os requisitos de preservação, o Rio Cascavel não está incluído na lei dos royalties ecológicos, que contemplam com acréscimo no ICMs os municípios que preservam mananciais. Nos últimos anos, o município defendeu a necessidade de um grande projeto de recuperação e preservação do rio. Seriam necessários recursos de R$ 9 milhões. O ex-prefeito Fidelcino Tolentino (PMDB) tentou levantar o dinheiro junto a organismos internacionais. No entanto, a própria prefeitura é responsável por despejos comprometedores nas margens do Rio Cascavel.


