Grande parte do lixo doméstico demora centenas de anos para se decompor em contato com o meio ambiente. Quando despejados em lixeiras a céu aberto, como acontece em Londrina e em muitas cidades brasileiras, os resíduos sólidos em geral levam 400 anos para se degradar. Diariamente são jogadas no ‘‘lixão’’ de Londrina 370 toneladas de lixo. O sistema de coleta seletiva de plásticos, metais, vidros e papéis ainda é precário na cidade.
O material que pode ser vendido para pequenas fábricas que trabalham com reciclagem é garimpado por 22 pessoas no ‘‘lixão’’. Muitos produtos, principalmente embalagens, acabam se transformando em lixo devido ao alto custo do seu processo de reciclagem. Garrafas plásticas de refrigerante, bandejas de isopor usadas para acondicionar frios e carnes, vasilhames plásticos de iogurte, latas de alimentos, caixinhas de leite longa vida, saquinhos de salgadinhos, fraldas descartáveis, entre outros materiais, se amontoam no ‘‘lixão’’ e compõem os resíduos que levarão centenas de anos para se decompor.
No Brasil sabe-se que metade do lixo produzido (240 mil toneladas por dia) é de matéria orgânica, 15% de plástico, 8% de vidro, 15% de metal, 7% a 8% de papéis. O professor de Saneamento e Meio Ambiente da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Fernando Fernandes, acredita que Londrina gere, na proporção, praticamente a mesma quantidade de cada tipo de lixo.
Ele salienta, porém, que para buscar soluções ambientalmente corretas para os resíduos sólidos, a prefeitura deveria em primeiro lugar fazer um diagnóstico para conhecer o lixo que produz e quem gera. A reportagem da Folha percorreu alguns bairros para fazer uma amostragem da produção de resíduos sólidos na cidade.
Foi possível constatar que o lixo que mais demora para se decompor no meio ambiente é produzido pelas classes alta e média. Embalagens plásticas de refrigerante, fraldas descartáveis, latas (café, achocolatado, milho, ervilha), vidros de conserva, bandejas de isopor, embalagens de sanduíche, baterias de celular, pilhas e caixas de papelão foram encontrados no lixo dos jardins Mediterrâneo (classe alta) e Petrópolis (classe média), ambos na zona sul.
Junto com estas embalagens estão misturados restos de alimento, frutas estragadas, materiais higiênico e de limpeza, além de restos de outros produtos. No Conjunto Saltinho, bairro de classe baixa também na zona sul, o lixo é composto praticamente só por matéria orgânica (cascas de frutas e de ovos). É difícil encontrar até mesmo sobras de refeições.
Ana Góes, 57 anos, e Francisco Góes, 63, comentam que os restos de comida são jogados para os cachorros da rua. O lixo produzido pelo casal possui ainda restos de material de costura (lã, linhas, retalhos) e de madeira. Ana trabalha com costura e Francisco com marcenaria. As poucas garrafas plásticas de refrigerante que o casal consome são utilizadas para guardar o amaciante produzido em casa por dona Ana.
No ‘‘lixão’’ é possível comprovar que a maior parte dos resíduos sólidos recicláveis é produzido pela classe alta. Adilson de Paula tem 31 anos e há 10 trabalha garimpando no ‘‘lixão’’. Ele afirma que o lixo da população com renda mais baixa é sujo e não pode ser aproveitado. ‘‘Tem terra, cascas de frutas, lavagem (arroz e feijão), borracha, pau’’, conta. É no lixo do ‘‘rico’’ que Adilson encontra o material que vai vender.

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