O que significa um milhão de anos? Alguém poderia dizer, simplesmente, que é tempo prá caramba. A afirmação assume proporções ainda maiores se levarmos em consideração os séculos que a natureza leva para decompor o vidro. Porém, poucos param para pensar que, na coleta seletiva, trocamos o lixo por geração de emprego, diminuição de custos na construção e redução dos danos ambientais.
Mais um passo em direção a essa consciência ecológica da população foi dado ontem pela manhã, no Calçadão, com o lançamento do novo sistema de coleta seletiva de lixo no Centro de Londrina. A previsão é de que a Organização Não Governamental (ONG) Associação dos Recicladores da Região Central (Aracen), organizada pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), colete diariamente de quatro a oito toneladas de material reciclável num trecho inicial compreendendo do Coreto ao Teatro Ouro Verde (cinco quadras).
''A nossa intenção é coletar mais de 30 toneladas no Centro, atingindo 100% de lixo reciclado'', afirmou o presidente da CMTU, Gabriel Ribeiro de Campos, que com o vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Rubens Augusto, participou do lançamento do novo sistema. Diariamente, os londrinenses produzem 380 toneladas de lixo. A Área Central é responsável por 70 toneladas.
Uma pesquisa encomendada pela Acil apontou que 72% dos moradores e empresários do Calçadão condenam a maneira como a coleta vinha sendo feita; 67% dos entrevistados concordam até com a aplicação de multas para disciplinar os moradores e o comércio.
Se o negócio é multa, ela será um dos personagens do novo sistema. O valor deve ser definido nos próximos 10 dias. Para não ser autuado, os moradores e comerciantes do Calçadão devem obedecer a coleta de lixo comum até às 19 horas, podendo depositar os sacos de lixo entre 18 horas e 18h45, nos pontos determinados.
Campos reconhece que a CMTU tem estrutura de fiscalização limitada e aposta na colaboração da população para denunciar os que insistirem em não obedecer o novo sistema. Ele lembrou que, além da barraca de informações instalada no Calçadão, os 31 integrantes da ONG farão visitas de esclarecimento. ''Antes ficava lixo jogado. A multa é interessante não só no Centro como em qualquer lugar da cidade'', avaliou o gerente de uma loja, Osvalmir Brandalise.
A preocupação com o lixo que, antes era espalhado pelo Calçadão por catadores de papel, vai também para uma roda de discussões hoje, às 19 horas, no auditório da Acil, com a participação da promotora de Defesa do Meio Ambiente, Solange Vicentin.
Na continha do reciclável em que o resultado de menos lixo não aproveitado é igual a mais vantagens ambientais, sociais e econômicas, os coletores da Aracen esperam colher os dividentos. A maioria era catador de papel ou desempregado e vê uma nova perspectiva de vida tirada do lixo.
O presidente da Central de Venda e Pesagem (Cepeve), João Pedro Queiróz, integrante há quatro anos da ONG Reciclando Natureza, disse que melhorou muito a situação dos antigos catadores de papel, que aderiram ao trabalho. Ele lembrou que os atravessadores pagam pelas garrafas pets, material mais visado pelos coletores, de R$ 0,70 a R$ 0,80. A Cepeve repassa R$ 1,20, descontando 5% para a manutenção das prensas e o pagamento de dois funcionários. ''Cada coletor da Aracen poderá ganhar, mensalmente, uma média de R$ 300,00, podendo tirar futuramente até R$ 500,00.''
Para a presidente da Aracen, Rosângela Gusmão de Oliveira, 24 anos, que estava desempregada há dois anos, a ONG traduz o que significa um milhão de anos para o vidro decompor, sem que seja reciclado. O desperdício tem o valor de uma nova vida. ''Para a gente melhora a nossa auto-estima. Terei o meu dinheiro, com um trabalho digno''.

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