A mão acaricia o livro. E lentamente vai lendo o texto e as figuras. Depois, segue abrindo uma porta e uma janela, de onde surge um urso que abana o braço. Logo em seguida, ela brinca com o Menino Maluquinho e o Rei Leão, para depois receber instruções sobre o preparo de uma mousse. ‘‘É dessa maneira que as crianças cegas de Curitiba estão aprendendo a gostar de literatura e conhecer novos mundos’’, diz Ione Sabóia Baggio, mostrando um livro ilustrado em alto relevo, feito pela Biblioteca Pública.
Trabalhando na Seção de Braille, Ione é uma das três funcionárias que tranformam sucata e restos de materiais em ilustrações tácteis para as crianças e jovens com deficiência visual. Por enquanto, sua equipe já conseguiu reproduzir 30 livros em figuras e texto em braille. Todos trazem mecanismos que permitem o movimento e a interação entre o leitor e o livro.
‘‘A idéia surgiu quando uma criança cega perguntou porque os livros dela não tinham ilustrações como os das crianças que vêem’’, conta Ione. Antes desse pedido, as crianças iam visitar a Biblioteca Pública apenas como dever, pois, em vez de ler os livros a que tinham acesso, preferiam cruzar os braços em frente às páginas cheias de pontos, mas sem vida para elas. Preocupada com o assunto, Ione decidiu ilustrar uma história que pudesse ser lida pelos cegos. ‘‘Sem muita experiência sobre o assunto, saiu um livro com ilustrações complexas, que mesmo assim agradou as crianças’’, recorda.
Ione foi testando novas idéias, criando metodologia própria, que permite aos leitores entender melhor as ilustrações em três dimensões. ‘‘Com tempo, a preocupação com os materiais usados procurou aproximar as texturas e formas com a realidade’’, diz. Uma vaca passou a ser preenchida em couro, para que a sensação táctil lembrasse o animal. Outros materiais, como palitos de dente ou picolé, servem para mostrar árvores, portas e janelas.
‘‘Tudo que cai na nossa mão e possa ser usado para ilustrar, vamos guardando’’, diz Rosana Maria Baumel, que estava confecionando o livro Bule de Café. Na verdade, conta Ione, a necessidade de pegar qualquer coisa que se encontre acontece porque a biblioteca não dispõe de verba para este serviço. Por isso, algumas vezes, elas vão a lojas pedir retalhos de panos ou qualquer outro material. ‘‘Se tivesse material e tempo, poderíamos produzir um maior número de livros’’, diz.
Nenhum dos funcionários da seção Braille pode trabalhar exclusivamente na confecção dos livros em alto relevo. Elas cuidam da transformação do texto para o braille. Também são responsáveis pelo restauro dos exemplares.

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