Obras serão disponibilizadas em bibliotecas e também encaminhadas para os professores trabalharem em sala de aula
Obras serão disponibilizadas em bibliotecas e também encaminhadas para os professores trabalharem em sala de aula | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Os causos circulantes na comunidade escolar de Londrina e região são tema de três livros produzidos dentro do programa "Contação de Histórias do Norte do Paraná: memórias e educação patrimonial".

O primeiro deles, “Contação de histórias no Norte do Paraná: memória e patrimônio”, traz relatos de professores sobre a experiência de trabalho com as lembranças de moradores das comunidades locais, envolvendo seus alunos. A obra contém depoimentos sobre bairros que possuem pouca bibliografia, como Pindorama, Califórnia, Eldorado, Nova Conquista, Ok, Kobayashi e Cafezal. O livro dois chama-se “Narrativas da Terra Indígena do Apucaraninha”, cuja coleta de histórias foi realizada junto à comunidade caingangue e que possui desenhos de estudantes das escolas da reserva Apucaraninha. Já o terceiro livro chama-se “Causos da terra roxa: modos de ser em Londrina.”

A iniciativa do projeto é da professora de História da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e ex-diretora do Museu Histórico Padre Carlos Weiss, Regina Célia Alegro. “Surgiu da conversa com os professores. Decidimos com o pessoal da UEL, do Museu e da rede de educação básica, a maior parte é municipal, mas temos também algumas escolas estaduais participando. Decidimos organizar essa ação coletiva”, destaca Alegro.

"Decidimos organizar essa ação coletiva”, destaca Regina Célia Alegro, professora da UEL e ex-diretora do Museu Histórico Padre Carlos Weiss
"Decidimos organizar essa ação coletiva”, destaca Regina Célia Alegro, professora da UEL e ex-diretora do Museu Histórico Padre Carlos Weiss | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Foram realizados treinamentos, oficinas e reuniões com os professores sobre como tratar essa questão da preservação da memória. “O professores fizeram levantamento de informações, projetos de estudos e cada comunidade escolheu o que queria explorar. Paralelamente estudantes da UEL que atuam no museu ofereceram oficinas de sensibilização para crianças e adolescentes da educação básica”, relata.

Ela se surpreendeu com a apropriação de causos cuja origem é de outras regiões e até de outros países. “Isso é visível. Tem gente que jurou que já viu o Nego d'água no rio Tibagi, mas não é uma narrativa de nossa região. Assim acontece também com a Yara, o Negrinho do Pastoreio, a mula-sem-cabeça. O tempo dos causos é fluído, mas quem contou que viu foi algum parente, como o avô ou um tio. O espaço é nosso e incorporou as narrativas de outros lugares. É muito bonito de se ver isso”, afirma.

A professora Eliane Aparecida Candoti, da Secretaria Municipal de Educação, conta que ofertou esse projeto para os professores e vários deles passaram a realizar esses encontros fora de seu horário de trabalho. “Durante as reuniões foram realizadas orientações sobre o modo de coleta, as oficinas de entrevista, oficina de mapas, oficina com documentos históricos, e a partir das formações os professores passaram a implementar nas escolas. Foi de onde vieram esses causos coletados”, explica.

“Agora que esse livro vai para a escola, o lugar de fala de cada grupo é valorizado. Ele servirá de pesquisa e é fonte material de alfabetização que parte do texto. Os textos que serão usados são da nossa comunidade. Cada texto de cada um dos exemplares traz o nome da escola e o primeiro nome da criança que fez a coleta. Não é o aprender pelo aprender. Ele tem significado e sentido. Tem laços afetivos com a minha raiz”, aponta Candoti.

"Eu falo que foi um encontro intercultural e inter-geracional. Envolveu diversidade étnica cultural, mas também aproximou as crianças dos idosos. Os alunos viram que esses idosos têm uma sabedoria que pode ser compartilhada", observa a professora da secretaria.

Os livros foram lançados durante o Londrina Mais, evento da secretaria de Educação realizado no fim de agosto. As obras não serão comercializadas, serão disponibilizadas em bibliotecas e escolas e também encaminhados para os professores trabalharem em sala de aula. O Museu Histórico irá publicar o material no formato e-book e disponibilizará em seu site no ícone "ação educativa" para consulta pública ou para baixar o seu conteúdo.

UNIÃO DA VITÓRIA

A pedagoga Juliana Bueno Grizos de Carvalho, da Escola Municipal Professora Tereza Canhadas Bertan, localizada no jardim União da Vitória 4 (zona sul de Londrina), leciona história e geografia e diz que foi uma honra ter trabalhado no projeto dos livros enquanto professora. "Isso possibilitou identificar a real história do bairro, como foram se constituindo as lutas e os entraves que eles foram enfrentando ao longo da história. Os alunos coletaram causos de família", destaca.

Ela enaltece que o trabalho valoriza o bairro, as histórias dos moradores e faz com que percebam a importância de valorizar os lugares de onde vieram e as histórias de cada um. "O União da Vitória tem muitas histórias legais. O nome do bairro já carrega uma delas, porque as famílias se uniram e conquistaram vitórias para a comunidade. As pessoas vieram do distrito rural, acamparam ali e a partir disso foram se constituindo as lutas e os entraves que eles enfrentaram ao longo da história. Foram lutando pelos direitos da água e do saneamento, pelo direito da regularização das casas, de ter nomes nas ruas, direito de ter ônibus que circulassem pelo bairro. Até hoje as famílias de lá lutam por melhores condições para eles e para os próprios filhos”, detalha.

"A gente vê sementes sendo plantadas todos os dias nas crianças e vê que esses frutos estão desabrochando a partir das crianças. Elas estão trazendo as histórias e partilhando", observa a professorai .

 Myrian Cristina Pereira de Melo: “Eu me senti orgulhosa"
Myrian Cristina Pereira de Melo: “Eu me senti orgulhosa" | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Uma das participantes do projeto foi Myrian Cristina Pereira de Melo, 11, aluna da 5ª série. “Eu me senti orgulhosa, feliz e alegre vendo crianças pequenas lendo o que a gente fez. Participei escrevendo textos para o livro, participei da oficinas, visitei o museu. Foi muito legal divertido”, destaca, dizendo que passou a valorizar a preservação da memória.

Sua colega Julya Gomes Fernandes Alves, 10, ressalta que é muito bom ver que pessoas de seu bairro terem feito esse livro. “Estou orgulhosa pelo meu bairro. Eu também tenho histórias legais. Meus avós contam que moravam longe e não tinham escolas como a nossa. Era tudo de barro. As casas não eram tão perfeitas. Era muito difícil naquela época. Algumas coisas mudaram muito, como as ruas e as casas. Ainda bem que mudou para melhor”, afirma.

Julya Gomes Fernandes Alves: "Mudou para melhor"
Julya Gomes Fernandes Alves: "Mudou para melhor" | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha
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