Dizem que Albert Einstein estava andando pela rua e encontrou um amigo. Conversaram durante alguns minutos. Quando se despediam, Einstein pôs a mão no ombro do amigo e perguntou:
- Eu estava indo para lá ou para cá?
- Para lá!
- Ah, então eu já almocei...
A história pode ser verdadeira ou não. O fato é que, na imaginação popular, o mundo da ciência sempre esteve associado à distração. Há um fundo de verdade neste clichê. O professor Luiz Carlos Bruschi, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), conhece bem os dois assuntos - ciência e distração. Especialista em histologia (o estudo dos tecidos orgânicos), hoje ele é diretor do Centro de Ciências Biológicas da UEL. Em décadas de universidade, tantas coisas viu, tantas histórias registrou dos seus colegas, que está escrevendo um livro: ‘‘Contos da Academia’’. Com a obra, ele pretende revelar o lado mais engraçado desses distraídos cuja função é produzir conhecimento, sabedoria e às vezes... piadas.
O próprio Bruschi não se considera um exemplo do tipo ‘‘sempre alerta’’. Ele morava no bairro Butantã, em São Paulo, e fazia doutorado na USP. O ano era 1976 ou 77. Em um sábado de manhã, pegou o Fusquinha marrom velho de guerra e foi ao centro, ‘‘comprar livros e futilidades’’. Bruschi deixou o Fusca no estacionamento. Fez compras, tomou um choppinho, almoçou, passeou um pouco para fazer a digestão. Pegou o ônibus e voltou para casa, feliz da vida.
Em casa, Bruschi tomou banho, descansou, viu televisão, e só foi lembrar do carro quando a esposa o convidou para comer uma pizza, à noitinha. Ele foi à garagem, crente de que encontraria o simpático automóvel por lá. Achou que tinham roubado o veículo. Só depois de um tempo lembrou que havia ido de carro para o centro. Resultado: teve que ir buscar o Fusquinha de táxi.
- Na época, eu estava redigindo a tese de doutorado. Quando você estuda profundamente, sai da realidade convencional. Entra num universo pessoal. Quando volta à vida cotidiana, leva um pouco de tempo até se adaptar. Nesse curto período há uma espécie de ‘limbo’. É quando ocorre a distração.

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