Livro traça perfil da criança abandonada
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sexta-feira, 14 de agosto de 1998
Marccio W. Varella 
Garantir educação de boa qualidade a todas as crianças abandonadas do País deveria ser a prioridade número um do governo federal, disse ontem em Maringá a professora, pesquisadora e escritora Maria Luíza Marcílio, 50 anos, titular do departamento de história da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Comissão de Direitos Humanos da instituição. Ela esteve em Maringá para lançar seu livro História Social da Criança Abandonada, que considera o primeiro resgate histórico da criança marginalizada do País.
O livro é fruto de 10 anos de pesquisas que já resultaram em 10 teses de doutorado na USP e em trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Maria Luíza disse que a criança brasileira hoje, no papel, tem as leis mais avançadas do mundo, mas que na prática não funcionam. Ela cita como exemplo o artigo 225 da Constituição Federal, que trata dos direitos da criança, e o Estatuto da Criança e do Adolescente, elaborado em 1990. São leis revolucionárias, e não podemos esquecer que, de acordo com essas leis, a criança tornou-se um sujeito de direito, coisa que pouca gente sabe, afirmou.
A professora criticou o governo em relação às estatísticas sobre as crianças abandonadas, que simplesmente não existem ou, se existem, não correspondem à realidade. Os números enviados à Organização Mundial de Saúde, aos órgãos internacionais que cuidam desse problema, são muito diferentes dos da realidade, disse Maria Luíza.
Marcos NegriniMaria Luíza: Prioridade deveria ser educar a criança abandonadaEla elogiou a bolsa de estudos implantada no Distrito Federal e disse que esta pode ser uma boa forma de distribuir a renda nacional com os mais carentes. Só colocar na escola não adianta. O governo tinha que ter uma pedagogia especial para educar essas crianças. Não podemos aplicar a mesma pedagogia que a usada com os filhos dos ricos. As abandonadas são crianças diferentes que merecem cuidados especiais para que seu futuro não fique comprometido, considerou.
Os erros cometidos ao longo da história contra as crianças abandonadas foram graves e persistem até hoje, explicou. No meu livro mostro as três fases dessa história social, começando na primeira metade do século 19 até hoje. Desde 1850 que os órgãos responsáveis pelas crianças abandonadas as chamam de menor. Naqueles tempos e até hoje menor é sinônimo de pobre marginalizado, de ladrão. O preconceito funciona até os nossos dias, afirmou Maria Luíza.
Nem as Santas Casas de Misericórdia, nem as Febens e Funabens, nada disso funcionou, nada disso deu certo, principalmente porque não houve vontade política para que desse certo, disse ela.
Pelos erros cometidos pela administração pública contra os menores abandonados, ao longo de toda a história do Brasil, é que temos hoje 70 milhões de eleitores que ainda não conseguiram concluir o primeiro grau de ensino, concluiu a professora.


