FUNGOS BRILHANTES -

Livro sobre floresta amazônica ganha versão em guarani e caingangue

Tradução do 'Brilhos na Floresta' foi feita com apoio de estudantes da UEL e de uma professora da terra indígena Apucaraninha; bióloga londrinense é uma das autoras da obra

Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

 

Grupo de indígenas em Londrina recebe alguns exemplares da obra, que conta a história de pesquisadores que descobrem fungos bioluminescentes na escuridão da floresta amazônica
Grupo de indígenas em Londrina recebe alguns exemplares da obra, que conta a história de pesquisadores que descobrem fungos bioluminescentes na escuridão da floresta amazônica | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 



O livro “Brilhos na Floresta”, sobre o grupo de pesquisadores que consegue enxergar fungos bioluminescentes na escuridão da floresta amazônica pela primeira vez, acaba de ser traduzido para o guarani e para o caingangue com o auxílio de estudantes da Universidade Estadual de Londrina e de uma professora da Terra Indígena Apucaraninha, pós-graduada em Língua Portuguesa pela UEL. O livro tem, entre seus autores, a bióloga londrinense e pesquisadora do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Noemia Kazue Ishikawa. Ela esteve recentemente em Londrina, onde se encontrou com indígenas para entregar alguns exemplares da obra.


'EU JÁ VI ISSO'

A tradução para o guarani foi feita pelo casal de estudantes da UEL, ambos da etnia Awa Guarani, Rodrigo Luís Tupã e Ana Lúcia Ortiz Martins. “Eu nasci na aldeia Porto Lindo, em Mato Grosso do Sul, e foi lá que eu aprendi o guarani. Depois me mudei para o Paraná. Traduzir esse livro para o guarani foi uma experiência única, porque é a nossa língua, é a maneira que a gente fala, se comunica. Escrever na nossa língua é gratificante”, apontou Tupã, que estuda medicina.


Ele conta que se identificou em alguns trechos do livro,  já que teve a oportunidade de ver esses brilhos na floresta "quando tinha de nove para dez anos de idade. A gente não tinha luz e se guiava por esses brilhos à noite. Eu não sabia que era um fungo que brilhava”, revelou. Tupã relatou que outras pessoas que falam guarani devem se identificar com esse relato e provavelmente irão dizer: “Eu já vi isso”.


“Eu acho que esse livro vai incentivar outros indígenas a escrever as suas histórias; não sabia que um episódio como esse poderia virar livro. Tem muita história que a gente pode colocar escrita no papel e deixar para as próximas gerações”, destacou o jovem. Essa não foi a primeira experiência literária de Tupã. Ele e sua esposa, que é estudante de psicologia,  já tinham escrito um capítulo do livro "Tetã Tekoha", publicado por 10 jovens indígenas de etnias Guarani e Kaingang, todos estudantes e egressos da UEL.


“Ter traduzido esse livro sobre os brilhos na floresta foi bom, porque é uma história real, não é um mito. A gente vive na aldeia e quando vê esse fenômeno desconhece o que está acontecendo e entender cientificamente tudo isso é gratificante”, apontou.


Questionado se o casal cogita escrever livros em guarani, ele respondeu positivamente, provavelmente na área de saúde. "Uma possibilidade é falar sobre essa questão da saúde mental dos indígenas e a correlação dos índios com a natureza. Também podemos contar coisas sobre a medicina para os indígenas”, detalhou.

 

Livro sobre floresta amazônica ganha versão em guarani e caingangue
Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


COSTUMES PARECIDOS

A outra tradutora é a professora Damaris Kaninsãnh Felisbino, primeira indígena pós-graduada em Língua Portuguesa pela UEL. Ela fez a versão do livro em caingangue, processo que levou cerca de um mês para concluir, entre as traduções e revisões do material.  A professora é da Terra Indígena Apucaraninha, localizada no município de Tamarana (Região Metropolitana de Londrina).


“A sensação de receber o livro pronto foi de muita alegria e felicidade. Já estava disponível em outras línguas, mas em caingangue não existia”, destacou. “Os caingangues possuem poucas coisas escritas. Temos pouco material na escola. Esse livro já é uma ajuda”, acrescentou.  Ela relatou que ao ler o livro ficou curiosa sobre a possibilidade de haver fungos bioluminescentes em Apucaraninha e foi à sua procura. “Ainda não vi esse brilho na floresta, mas quero conhecer”, destacou.  


Segundo a professora, durante o processo de tradução percebeu que o povo baniwa, localizado no Norte do País e descrito no livro, possui costumes semelhantes aos da TI Apucaraninha. “No livro fala sobre a onça, que não tem perigo se ninguém mexer com ela. Vi que esse conselho também é dado pelos mais velhos por aqui. Essa preocupação com a segurança é a mesma que os caingangues vivenciam aqui”, exemplificou. 


Questionada se essa tradução pode incentivar a produção de mais livros em caingangue, ela relatou que sim. “Com a leitura desse livro pelas crianças, acho que todos vão ficar felizes. Já compartilhei o livro com professores de língua caingangue e de biologia e os caingangues também já se interessaram pela obra.”



IMPORTÂNCIA CIENTÍFICA

O professor do curso de letras vernáculas e clássicas da UEL, Marcelo Silveira, destaca a importância científica da obra. "Os autores fizeram ciência e divulgaram. É um livro de divulgação científica", reforçou.

 

Livro sobre floresta amazônica ganha versão em guarani e caingangue
Divulgação/Inpa
 


Ele apontou que nunca tinha visto nada desse tipo voltado para os guaranis. “O contato dos guaranis com os europeus remonta desde a época do descobrimento, ou seja, há muita literatura. Mesmo assim, não há muitos de divulgação científica para eles. Já a escrita dos caingangues tem 60 anos e esse livro é uma das poucas literaturas que existem voltada para eles."


O professor destacou ainda o trabalho de tradução. "Por mais que sejam dialetos, eles são inteligíveis e intercambiáveis. As outras aldeias conseguem ler e entender”, observou “O livro está disponível em sete línguas, mas neste 'Brasilzão' há mais de 350 línguas indígenas.”. 


AUTORES 

O livro foi escrito em conjunto pelo agente de combate às endemias Aldevan Baniwa;  biólogo japonês e pesquisador da Universidade de Kyoto, Takehide Ikeda; a bióloga londrinense  Noemia Kazue Ishikawa e pela antropóloga e linguista do Inpa, Ana Carla Bruno. 


Os autores do livro “Brilhos na Floresta” também são os personagens da história retratada nas páginas do livro. A bióloga londrinense Noemia Ishikawa relatou uma passagem como sendo uma das mais importantes para ela. “Foi quando o professor Takehide  Ikeda se perguntou por que nunca tinha visto esses fungos bioluminescentes, já que eles existem no mundo inteiro e ele já tinha andado em florestas à noite.”


O proprietário do sítio, Aldevan Baniwa, respondeu de maneira jocosa. “Ha! Ha! Ha! Vocês, cientistas! Deveriam saber que nem tudo o que se procura se encontra iluminando.” Ele ressaltou que por vezes, para enxergar algo, é preciso “desiluminar”. 


Ishikawa ressaltou que os livros em dialetos indígenas só são compreensíveis para eles. “Se a gente tentar ler, não vai entender nada. Esta é a mesma sensação quando os indígenas pegam livros escritos em português”, observou a bióloga.


 

A bióloga londrinense Noemia Ishikawa é uma das autoras do livro e também personagem
A bióloga londrinense Noemia Ishikawa é uma das autoras do livro e também personagem | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


DÉCADA DAS LÍNGUAS INDÍGENAS

Ela apontou que em 2021 começa a “década das línguas indígenas”. “Se até hoje a tradição de se contar histórias veio pela oralidade, agora é um outro momento. Não sei o quanto esse livro vai ajudá-los a escrever seus livros, mas queria que eles se sentissem incentivados a escrever as suas histórias para que a gente possa traduzir para a nossa língua e não o contrário”, destacou.


“Não há indígenas que não tenham narrativas interessantes. O episódio dos fungos bioluminescentes chamou a atenção porque é um assunto cosmopolita.  O episódio aconteceu por acaso. Fomos  ao sítio de Aldevan e, por ser uma noite de lua nova, ele nos convidou para  ver a floresta brilhante. Fomos ele, eu e o Ikeda para o mato. Eu já tinha visto isso em laboratório e na literatura, mas quando a gente vê isso com os próprios olhos fica emocionada”, destacou. 


 

Livro sobre floresta amazônica ganha versão em guarani e caingangue
Divulgação/Inpa
 


Baniwa morreu de Covid-19 em abril deste ano e o projeto de realizar conexões entre saberes tradicionais e da academia científica acabou ganhando o seu nome. O projeto também visa fortalecer as línguas indígenas e valorizar a biodiversidade da Amazônia por meio de publicações e de distribuições de livros infantis e técnico-científicos em diversas línguas indígenas e não indígenas.


SERVIÇO: O livro está disponível no site https://ppbio.inpa.gov.br/Livros/Brilhos_na_Floresta.

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