Londrina – O status de "Eldorado Cafeeiro" que Londrina ganhou na primeira metade do século 20 associa quase que automaticamente o período vivido na cidade à riqueza e prosperidade. No entanto, de acordo com a professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Jolinda de Moraes Alves, este é apenas um lado da história. O outro, escondido e sem glamour, é tema do livro Assistência aos Pobres em Londrina (1940/1980), que será lançado hoje.
Em 374 páginas lançadas pela editora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a autora, graduada em Serviço Social com doutorado em História e Sociedade, resgata o empobrecimento da população que migrou para Londrina em busca de oportunidades. Jolinda explica como a sociedade local e o poder público lidaram com a mendicância, o desemprego, o abandono de crianças ao longo dos anos. "Estudei a história das pessoas que vieram pra cá e empobreceram, aqueles que não venceram."
"Era um tempo que a pobreza e a assistência eram de responsabilidade da sociedade, não do Estado. Só a partir de 1988, com a Constituição Federal, a assistência vira uma política pública", contextualiza a professora. Nos 40 anos estudados, o livro registra os fatores de empobrecimento, desde os filhos de prostitutas abandonados até as geadas e o êxodo rural. "O preconceito era enorme, houve até um episódio em que as prostitutas tiveram os cabelos raspados pela polícia. Elas marcharam pela Avenida Paraná para denunciar a violência. Era o retrato da criminalização da situação de pobreza, de miséria", observa.
Segundo Jolinda, um ano após a fundação do município, em 1935, há o registro do primeiro Natal dos Pobres. "Sem o amparo do poder público, a sociedade se organizava e criava alternativas, como jantares, bingos. O auxílio do governo se resumia apenas a doações de terrenos." Como base para a pesquisa, Jolinda usou jornais e revistas da época, além de colher entrevistas. Todo o processo durou cerca de dois anos. "É um período que merece ser registrado, pois com a assistência transformada em política pública, as histórias desta primeira fase não podem ser esquecidas".

Beneméritos
Jolinda destaca o trabalho das pessoas que dedicaram a vida à assistência aos pobres, que ela define como os beneméritos pioneiros. A primeira é Maria de Souza Melo, esposa do engenheiro da Companhia de Terras, Aristides Souza Melo. "Ela acolheu muitas pessoas em casa. Os pacientes com casos mais graves, com tuberculose, por exemplo, ela encaminhava para Campos do Jordão (SP)", contou. Maria Melo também foi responsável pela fundação da Associação das Senhoras Rotarianas de Londrina.
Os religiosos dom Geraldo Fernandes e frei Nereu do Vale também são lembrados pelos serviços da Lei de Congregações Religiosas e fundação do Asilo São Vicente de Paulo, Creche Santa Rita e Lar Santo Antônio. Jolinda detalha que frei Nereu teve ação muito importante na primeira favela de Londrina. "Depois da linha do trem tínhamos a Vila do Grilo, onde os pobres se aglomeravam em condições sub-humanas. Com o trabalho social, ele transformou a favela na Vila da Fraternidade."
Jolinda conta a história de militância na assistência social do vicentino Antônio Faria Netto, que veio de Minas Gerais e se dedicou a ajudar famílias pobres. "Os vicentinos tiveram e ainda têm papel de destaque na luta pelos pobres na cidade."
Outro nome ressaltado é o de Lucilla Ballalai. "Desde que chegou em Londrina em 1949, sua casa ficou conhecida como o lugar onde os recém-nascidos desamparados encontravam guarida", conta. O número de crianças abrigadas por ela passou de 40. Algumas delas eram doadas para famílias ricas. "Ao seu modo fazia o bem para os pequenos." Lucilla também fundou o Hospital do Câncer.

Serviço
Lançamento do livro Assistência aos Pobres em Londrina (1940/1980), de Jolinda de Moraes Alves, ocorrerá hoje, às 18h30, no Museu Histórico (Rua Benjamin Constant, 900)

mockup