Livro mostra cultura do bordel nos velhos tempos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de novembro de 1997
Benê Bianchi Londrina 
A história de Londrina contada pelos boêmios que frequentavam a zona do meretrício, os jogadores, os gigolôs e cafetinas. Este é o contexto do livro O centro e as margens: prostituição e vida boêmia em Londrina (1930-1970), escrito pelo historiador Antonio Paulo Benatti, formado pela Universidade Estadual de Londrina.
O livro é o resultado da pesquisa de mestrado em História, de Benatti, defendida na Universidade Federal do Paraná, e foi lançado semana passada em Curitiba. Por enquanto, não há data para o lançamento em Londrina.
O livro se insere naquilo que se convencionou chamar de história dos marginais e procura fazer uma releitura da história da Cidade, trazendo personagens marginais para um campo de visibilidade, comenta Benatti. Ele conta que o interesse pelo tema nasceu quando trabalhava no Centro de Documentação e Pesquisa em História da UEL, onde levantava fontes para a história das classes populares em Londrina.
Segundo Benatti, o que mais lhe chamou a atenção foi a presença cotidiana do tema prostituição nos editoriais e colunas policiais dos jornais da época pesquisada. Os jornais sempre combatiam a prostituição, tentando retratar Londrina como a cidade da ordem, do trabalho, do progresso. A prostituição aparecia como o avesso disso tudo.
Por outro lado, observa Benatti, ele encontrou muitos aspectos positivos da prostituição na memória dos mais velhos, quando entrevistava as pessoas que viveram a época. Existia essa ambiguidade e isso me chamou muito a atenção. Tanto que tem um subcapítulo no livro intitulado As Ambiguidades da Tolerância, no qual concluo que a tolerância à prostituição nos anos 50 era uma forma sutil de controle social.
O livro é dividido em três capítulos. O primeiro retrata as metamorfoses fisionômicas da Cidade. Nele, basicamente, são relatadas as mudanças na vida e ambiente urbano de Londrina. É a transformação da Cidade pioneira na metrópole do café, dos anos 30 a 50, explica Benatti.
Ocorreram madanças arquitetônicas, com as casas de palmito dando lugar às mansões. Antes da riqueza do café, as diferenças de classes não eram tão presentes no cotidiano local, embora elas existissem.
O segundo capítulo se chama A Cidade Erótica. Nele, Benatti mostra a presença marcante da prostituição no cotidiano da Cidade, além dos espaços de boêmia. O lado positivo da prostituição não se limita ao prazer sexual, mas também ao prazer da vida boêmia. A cultura do bordel foi muito positiva para a comunidade masculina. O professor diz que a zona do meretrício era o centro cultural de Londrina dos anos 50. Todos se encontravam na zona e lá acontecia de tudo: negócios eram feitos e até campanhas políticas engendradas.
O terceiro e último capítulo, Os Avessos do Lúdico, mostra a questão da vigilância e repressão policial à prostituição e do confinamento das prostitutas. Segundo Benatti, a zona do meretrício era um espaço de confinamento das meretrizes. Para que elas fizessem compras na Cidade tinham que se vestir e se comportar adequadamente. Mas o ideal mesmo é que não saíssem de lá.


