Nos últimos 15 anos, uma leva de brasileiros nikkeis lançou-se ao caminho inverso percorrido há mais de 90 anos por seus pais e avós imigrantes, retornando ao Japão com a perspectiva de resgatar suas origens e angariar recursos. Os dekasseguis, como também eram chamados os imigrantes japoneses que no início do século passado deixaram seu País para trabalhar em outros continentes, hoje formam uma legião de aproximadamente 254 mil brasileiros que tentam a sorte no Japão, atraídos pelas oportunidades de emprego a custo de muito sacrifício. Extensas jornadas de trabalho, choque cultural, dificuldade para se comunicar e o isolamento têm tornado dura a realidade de parte dos dekasseguis a ponto de desenvolverem distúrbios de natureza mental.
Estas situações coemçaram a chamar a atenção de especialistas há alguns anos como, por exemplo, o psiquiatra Percy Galimbertti, autor do livro ''O Caminho que Dekassegui Sonhou'', que será lançado amanhã à noite, na Biblioteca Pública de Londrina. A obra é resultado de uma tese de mestrado defendida por Galimbertti na Pontíficia Universidade Católica (PUC), de São Paulo (SP). O livro é publicado pela editora da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
No livro, Galimbertti traça um intrigante perfil sobre os dramas vividos por um grupo de 30 dekasseguis paranaenses que procurou auxílio psiquiátrico. O contato com estes pacientes, explica, intensificou-se a partir de 1992 quando passou a atuar em Londrina e Maringá, região com marcante presença da comunidade nikkei. ''Me chamou a atenção a constante procura de pacientes de origem japonesa que tiveram experiências dekasseguis, necessitando de ajuda psicológica.''
Se por um lado as oportunidades de trabalho temporário (entre dois e três anos) oferecidas mostravam-se tentadouras, a vida e adaptação no Japão exigia muito. ''Eles tinham também a perspectiva de resgatar a cultura, refazendo o caminho de seus antepassados. Mas, ao chegar lá, se depararam com uma realidade inversa: a rejeição e o isolamento provocados pela dificuldade de se comunicarem e o desgaste causado pelas extensas jornadas de trabalho.''
Galimbertti entrevistou pacientes que repetiram a experiência de dekassegui e relataram quadros de revolta, impotência, tristeza, delírio, mania de perseguição, sentimento de culpa, depressão, ansiedade, agressividade e isolamento. Para entender as causas, o autor aprofunda a discussão sobre os parâmetros éticos e morais que regem a cultura nipônica. Estes princípios acabaram por acirrar ainda mais as situações de sofrimento como o medo de fracassar ao não corresponder às expectativas de familiares que permaneceram no Brasil.
''Eles sofrem lá uma segregação ocupacional através de um trabalho considerado pelos próprios japoneses como sujo, perigoso e pesado. Na tentativa de não faltar com a promessa de juntar recursos para retornar, alguns dekasseguis se submetem a uma jornada estressante e a uma vida social nula'', explica Galimbertti.

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