Ney de SouzaTrabalho nota 10Luiz Carlos da Silva e o livro: autor estudou jornalismo para escrever ‘‘Farmáfia’’‘‘Perto da farmácia tinha um boteco que vendia pinga para bêbados e droga para viciados (a polícia tinha dado batidas ali). O dono da farmácia fazia aborto, trocava remédios, vendia remédios vencidos e remédios controlados para viciados. A farmácia era muito pior que o boteco. No boteco, as pessoas sabiam o que estavam comprando e tomando. Na farmácia, os clientes eram trapaceados.’
As frases acima, atribuídas a um balconista de farmácia brasileiro, é o ponto de partida do livro ‘‘Farmáfia; Falcatruas nos Balcões de Farmácias’’, que pretende alertar compradores de remédios de todo o País sobre os perigos que podem estar escondidos atrás de aventais brancos e prateleiras limpas e geralmente espelhadas.
Escrito pelo jornalista iguaçuense Luiz Carlos da Silva, de 28 anos, ‘‘Farmáfia’’, segundo o autor, tem o objetivo de mostrar como funciona a prática da ‘‘empurroterapia’’ (ato de persuadir o cliente a comprar remédios inúteis e sem receita médica) e crimes bem maiores, como a venda de produtos vencidos, abortivos e medicamentos entorpecentes. De acordo com o jornalista, essas práticas são comuns na maioria das farmácias brasileiras.
Antes de escrever o livro, Silva, que adotou o nome editorial de Silva Luiz, trabalhou em 23 farmácias, durante 13 anos, nos Estados do Paraná, São Paulo e Minas Gerais e no Distrito Federal. ‘‘Em todas elas encontrei irregularidades’’, afirma. Nas maioria das farmácias ele trabalhou como balconista. Mas sua estréia foi como pacoteiro, em um estabelecimento de Foz do Iguaçu. Nessa farmácia, cujo nome não é citado no livro, segundo o autor, o dono tinha o hábito de adulterar datas para vender medicamentos vencidos.
Em 1992, quando trabalhava em uma farmácia de São Bernardo do Campo (região do ABCD paulista), Silva teve a idéia de escrever um livro para relatar suas experiências atrás dos balcões. Decidiu estudar Jornalismo para ‘‘aprender a escrever’’. Na última semana, depois de ter passado por duas faculdades mineiras - nas cidades de Alfenas e Pouso Alegre - e tendo concluído o curso nesta última, em agosto do ano passado, o ex-balconista e atual jornalista lançou ‘‘Farmáfia’’ em Foz do Iguaçu.
Entre 92 e 95, já estudando, Silva se empregou em farmácias mineiras para ‘‘colher provas’’ da tese que queria sustentar. Com um gravador escondido, gravou mais de cem horas de conversas, nas cerca de 50 farmácias em que esteve (como funcionário ou falso cliente). São esses depoimentos, além de entrevistas com farmacêuticos, médicos e especialistas, que embasam o livro.
‘‘Tenho conversas com balconistas que provam a ‘empurroterapia’, com donos de farmácias ensinando a fazer aborto e a enganar os consumidores’’, explica. No livro, ele não cita o nome de farmácias e nem de seus proprietários e usa nomes fictícios para os balconistas que deram depoimento.
Segundo o autor, a prática da ‘‘empurroterapia’’ é comum no Brasil - e teria ocorrido na maioria absoluta das farmácias pesquisadas por ele. Silva sustenta que essa prática é resultado de um ‘‘conluio’’ entre o laboratório, o dono da farmácia e o balconista. No fim das contas, esses três agentes são beneficiados.
Os laboratórios, principalmente os clandestinos, dão às farmácias bonificações (do tipo ‘‘compre uma caixa de determinado remédio e leve outra’’) e pagam aos balconistas comissões de até 50% para vender o produto. ‘‘Nas pequenas farmácias, os balconistas não têm salário fixo e ganham por comissão. Essa prática é a única forma de conseguir um salário melhor’’, afirma Silva.
Na visão do jornalista, a ‘‘empurroterapia’’ se tornou mais fácil com a entrada em vigor da lei 793/93, que obriga o fabricante a imprimir na embalagem o nome genérico (o princípio ativo) do medicamento. Se o médico receitou um analgésico cujo princípio ativo é a dipirona, por exemplo, o balconista da farmácia poderá ‘‘empurrar’’ o produto à base de dipirona de um laboratório de fundo-de-quintal, muitas vezes sem eficácia ou até prejudicial à saúde.
Além da ‘‘empurroterapia’’, o livro sustenta que é comum o fato de farmácias venderem remédios utilizados como abortivos ou medicamentos entorpecentes sem receita médica. Sustenta também que esses problemas acontecem por deficiências no trabalho da Vigilância Sanitária (que deveria fiscalizar as farmácias) e do Conselho Regional de Farmácia (encarregada de acompanhar o trabalho dos farmacêuticos).
Escrito como trabalho de conclusão de curso (nota 10, com louvor), ‘‘Farmáfia’’ tem tiragem inicial de mil exemplares e está sendo lançado pelo autor nas principais capitais do País. Em Foz do Iguaçu, o livro custa R$ 14,00.

mockup