Marcos NegriniNo livro, o escritor Ildeu Manso Vieira relembra o período de torturaO escritor Ildeu Manso Vieira relança amanhã o livro ‘‘Memórias torturadas (e alegres) de um preso político’’, extraído do diário de prisão que escreveu durante o período da ditadura militar. A solenidade está marcada para as 20 horas na biblioteca da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Vieira foi sequestrado, torturado e preso pelo Exército em setembro de 1975.
Durante três anos que ficou na cadeia em Curitiba, passando pelo Doi/Codi, DOPS, cadeia da PM e pela Prisão do Ahu, Vieira escrevia dentro das condições que encontrava. ‘‘Muitas vezes usava papel higiênico e pontas de lápis, conseguidas com os guardas da prisão sem conhecimento dos superiores’’, lembra.
Outro problema era tirar da cela e guardar todos os manuscritos fora da cadeia. As ‘‘páginas’’ do diário eram quase sempre tiradas da prisão pelos filhos de Vieira, todos menores que não passavam pela revista da guarda. ‘‘A gente colocava os papéis dentro da cueca deles’’, explica.
Fora das celas, os manuscritos eram espalhados por casas de parentes e conhecidos. O procedimento era necessário para não despertar suspeitas da polícia e do Exército, que promoviam revistas semanais na casa onde morava a família de Vieira.
Entre as diversas acusações que pesaram contra ele, estão a de participar de cursos de guerrilha em Cuba e de ter dado fuga a adeptos da luta armanda. ‘‘Realmente ajudei a simpatizantes da guerrilha a saírem do País, mas sempre fui contra qualquer ação de violência. Sempre lutávamos pelo poder através do voto’’, afirma. O livro de Vieira foi lançado pela Editora Oficial e teve 6 mil exemplares vendidos no Paraná. Agora a obra será relançada pela Editora da Universidade Estadual de Maringá (Eduem) e a intenção é promover a venda em outros estados.
O ‘‘Memórias alegres...’’, segundo Vieira, é apenas uma parte do diário de prisão, que tem no total 1.880 páginas e vai gerar novas obras. ‘‘O primeiro livro conta como era o dia-a-dia dentro das celas, descrevendo o sofrimento e a dor de cada um dos companheiros torturados e com os direitos agredidos ao extremo’’, revela Vieira. A próxima obra dele, que está na fase de revisão, será o ‘‘Sequelas das torturas’’, onde narra a vida depois da prisão de 28 anistiados de várias regiões do País e o trabalho dos advogados que lutaram pelos direitos humanos.

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