Reprodução/Museu Municipal de RolândiaOs alemães, que chegaram a Rolândia no início da década de 30, tiveram muitas dificuldades de adaptação e com a falta de infra-estrutura; o primeiro trabalho era derrubar as centenárias árvores.Fugindo da morte - A imigração de judeus-alemães para Rolândia na década de 30. Esse é o título do livro que o professor de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Hermann Iark Oberdiek, lança nesta terça-feira. São quase 200 páginas repletas de dados, emoções e análises da saga de 80 famílias judias que fugiram da Alemanha nazista - para não serem exterminadas pela política racista de Adolf Hitler às vésperas da 2ª Guerra Mundial - e mudaram-se para Rolândia (25 km a oeste de Londrina), entre 1932 e 39.
O livro - resultado da pesquisa para tese de mestrado em História Social desenvolvida na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) - analisa como essas famílias judias deixaram sua terra natal a contragosto, enfrentaram a mata e preconceitos, mudaram de profissões e costumes e tornaram-se peça fundamental para o sucesso da colonização do Norte do Paraná, que na época passava por enormes dificuldades econômicas.
‘‘A estrutura principal do livro desvenda por que e como os judeus-alemães vieram parar aqui; e quais as consequências desta imigração para o Norte paranaense. Como um número tão pequeno de imigrantes teve uma participação decisiva em todo o projeto e processo de colonização de região tão grande, importante e rica como é o Norte do nosso Estado’’, comenta Hermann Oberdiek, nascido em Palmas (Sudoeste do Paraná) em 1946, filho de Otto Oberdiek, alemão não judeu de Hannover, que chegou ao Brasil em 1924.
No início da década de 30, Hitler apertou o cerco discriminatório contra os judeus na Alemanha, impondo enormes restrições sociais e econômicas à vida deles e aumentando as perseguições político-religiosas que levaram muitos às prisões nazistas. Os que tinham condições fugiam para outros países, notadamente os Estados Unidos. O maior problema é que eles não podiam levar seus bens financeiros. Do lado de cá do Atlântico, na mesma época, a Companhia de Terras do Norte do Paraná enfrentava problemas de falta de capital para implantar a ferrovia entre Ourinhos (SP) e Maringá e fazer avançar o projeto de colonização traçado em Londres, capital da Inglaterra.
Das duas dificuldades e de interesses comuns surgiu a idéia de união. A companhia londrina se juntou a uma companhia de emigração de Berlim, capital da Alemanha. Em 1931, as duas contrataram o alemão Oswald Nixdorf, hoje personagem principal do livro Fugindo da Morte. Ele foi encarregado de encontrar e organizar judeus-alemães que tivessem dinheiro e interesse em se mudar para o Brasil. Essas famílias, formadas por profissionais liberais de classe média, foram selecionadas no centro da Alemanha, conhecido como Região do Cavaleiro Roland, senhor feudal na Idade Média.
Foi por isso que a área escolhida para acolher os futuros imigrantes judeus-alemães recebeu o nome de Rolândia. As duas companhias envolvidas no empreendimento encontraram uma forma legal de retirar as famílias seguidoras do Judaísmo e seus patrimônios da Alemanha nazista. O dinheiro com o qual os judeus compravam as terras de Rolândia era investido pela companhia de emigração alemã na aquisição de equipamentos ferroviários, que eram posteriormente exportados ao Brasil para a Companhia de Terras do Norte do Paraná. A exportação de produtos industrializados era incentivada por Hitler, que preparava o caixa para bancar as operações do exército nazista na Grande Guerra, que se aproximava.
Reprodução/Museu Municipal de RolândiaOs imigrantes europeus construíram suas primeiras casas - conhecidas como ‘ranchos’ - com troncos de palmito e com madeira, entre as quais as preferidas eram a peroba-rosa e o cedro, existentes em abundância.
Assim, a Companhia de Terras viabilizou a construção da ferrovia tão necessária à colonização e os judeus-alemães vieram para Rolândia, com pouco dinheiro - cada família só podia sair da Alemanha com dez mil marcos -, mas com muita esperança e vontade de trabalhar. ‘‘Além das dificuldades de mudar para um país diferente, para um lugar que só tinha mato, os judeus enfrentaram também muita discriminação e um novo desafio: eles eram, na maioria, profissionais liberais - médicos, dentistas, advogados, professores - e nunca tinham trabalhado com agricultura na Alemanha’’, lembra Hermann Oberdiek.
O livro conta que a própria vinda deles foi cheia de dificuldades. O Brasil vivia a época da ditadura de Getúlio Vargas, que impunha restrições à imigração de negros, japoneses e judeus. ‘‘Vargas estava muito próximo, tinha muitas afinidades com o governo nazista de Hitler, o que só mudou no início da Guerra Mundial em consequência de pressões dos Estados Unidos. Antes, judeus só entravam no País se comprassem terras ou viessem para fazer investimentos. Foi através desta brecha que vieram os judeus-alemães, fugitivos da perseguição nazista’’, comenta o pesquisador, que é também formado em História Social pela Universidade de Buenos Aires, capital argentina.
Ele não conseguiu chegar ao total de investimentos feitos pelos imigrantes judeus-alemães em Rolândia, porque este dado é mantido em sigilo nos arquivos da Companhia de Terras. ‘‘Além da importância econômica, este grupo de imigrantes trouxe para o Norte do Paraná um valoroso acervo cultural, entre livros, quadros, instrumentos musicais, língua e costumes. Eles se consideravam judeus liberais, não ortodoxos. Inicialmente, plantaram café, produto que interessava mais à Companhia de Terras, para exportação’’, ressalta Oberdiek. ‘‘Com muito sofrimento e garra, eles venceram. Escreveram uma história rica e apaixonante. Superaram dificuldades, preconceitos e discriminações; criaram seus filhos e netos e nos deixaram uma bela lição. Fugiram da morte e escreveram uma história de vida que vale a pena ser conhecida.’’

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