Livro considerado racista ganha nova versão
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terça-feira, 18 de março de 2008
Adriana Ito<BR>Reportagem Local 
Um ano após denunciar problemas de racismo em um livro didático, o professor Edmundo Silva Novais comemora a revisão do capítulo que trata da história dos negros no Brasil, com a substituição de algumas imagens e modificação do texto referente ao assunto.
Em março do ano passado, Novais, que também é diretor de políticas sociais da APP Sindicato, procurou a FOLHA para denunciar que o livro de história de seu filho continha conteúdo racista. O livro em questão, da Coleção Conversando sobre História, de Francisco Coelho, estava sendo utilizado pelos alunos da terceira série da Escola Estadual Carlos Dietz, e integra o Programa Nacional do Livro Didático 2007 do Ministério da Educação. Na época, Novais chegou a contar o número de ilustrações presentes na publicação que considerava racistas: 14 das 25 em que apareciam pessoas negras.
O caso gerou uma denúncia ao Ministério Público do Paraná, registrada pela Associação Cultural de Negritude e Ação Popular (Acnap) e Coletivo Estadual de Promoção da Igualdade Racial na Educação do APP Sindicato em abril do ano passado. Após duas reuniões, foi firmado em dezembro um compromisso de ajustamento de conduta, no qual a editora Positivo, responsável pela publicação do livro, se comprometeu a apresentar uma nova versão da obra. No mesmo mês a nova edição foi aprovada pelas duas entidades.
Dentre as modificações exigidas no documento, está a alteração do trecho em que diz ''Para trabalhar nos canaviais, vieram os negros'', e que ficou assim: ''Para o trabalho nos canaviais foram trazidos os africanos''. As ilustrações do capítulo que trata dos escravos também foram substituídas por outras condizentes com a lei 10.639/03 (que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana em todo o território nacional). Uma das imagens é a reprodução de um quadro de Cândido Portinari intitulado Cana.
Com isso, a próxima remessa desses livros deve chegar às escolas em 2010 com as alterações. Para Novais, essa não foi a solução ideal, já que os livros não foram recolhidos, mas foi uma vitória. ''Quando se tem muitas matérias escolares publicadas com essas terminologias, mantém-se o padrão de ideologia do período escravocrata no nosso país. O livro didático vai influir na forma como a criança vai tratar e falar de pessoas negras. Por isso, conflitos como este são necessários para que se percebam as falhas e a maneira preconceituosa como são tratados os negros'', avalia.
Segundo Luiz Carlos Paixão, representante da APP na ação, o caso ainda gerou um pedido do MP para que a APP emitisse um parecer em relação aos outros livros didáticos de história, para que, se for o caso, sejam feitas revisões também em outras obras. ''Não é simplesmente culpa das editoras. Esses conteúdos têm sido estudados dessa forma há tempos, e os próprios professores de hoje aprenderam a história da escravidão a partir da visão européia'', analisa.
A gerente editorial de livros e periódicos da editora Positivo, Vitória Rodrigues e Silva, esclareceu que, após a lei que obriga o ensino da história e cultura africanas, a editora passou a dedicar uma atenção especial a esse conteúdo. ''Curiosamente, no guia dos livros didáticos, um dos elogios por parte dos avaliadores do MEC foi justamente o fato de o livro contemplar o assunto e conter uma iconografia farta. Na perspectiva deles, não havia conotação negativa'', revela, acrescentando que mesmo assim a editora se prontificou a substituir todas as figuras.


