Luiz Carlos Sampaio, 78 anos, não sabe o que é descanso. Depois de vencer a tuberculose óssea na adolescência - quando teve o corpo engessado dos 19 aos 23 anos para se recuperar -, dedicou-se ao trabalho como nunca. Ainda na cama, leu todos os clássicos a que teve acesso. Viajou da literatura à ciência e filosofia e adquiriu o conhecimento necessário para tocar o cafezal da família até a geada dizimar a plantação na década de 1960. Na cidade, fez um pouco de tudo até aposentar-se.
Casou-se tarde, aos 42 anos, com uma contadora que soube planejar a velhice do casal, que não teve filhos. ''Se não fosse pela minha esposa estaria em maus lençóis'', brinca. Mesmo com as sequelas da doença - ele caminha com o auxílio de uma bengala -, Sampaio visita sempre que pode os detentos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), com quem gosta de debater literatura.
Também tem se dedicado à edição do Manual do Aposentando, o qual conta com textos de professores universitários e médicos de diversas especialidades que discorrem sobre o envelhecimento com qualidade. Ele sonha ainda com um projeto pioneiro de construção de casas para aposentados, feitas em local próprio e com materiais adequados, ''para que idosos carentes continuem a ter uma vida sadia apesar de suas limitações''. Criou também o Clube da Semente do Museu Histórico de Londrina e a Associação dos Amigos e Ex-Alunos da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e faz parte da diretoria da Associação Beneficente e Cultural dos Aposentados, Pensionistas e Idosos de Londrina e Região Norte do Paraná (Asapel).
Para Sampaio, ajudando o outro ele ajuda a si mesmo. Entre um livro e outro, um projeto e outro, conquista novos amigos e espicha a vida. ''Já fui rico, já fui pobre. Tenho poucos, mas muito bons amigos'', resume o aposentado, cujas histórias renderiam um belo livro.
Como Sampaio, milhões de aposentados brasileiros deixaram seus pijamas no armário e decidiram explorar a vida depois dos 60 anos. Para o geriatra João Batista Lima Filho, coordenador da pastoral da pessoa idosa da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o aposentado já não é mais aquele indivíduo dependente, que passa o dia inteiro em casa, reclamando da vida.
''Pelo contrário. Quem está se aposentando hoje fez parte da geração hippie dos anos 70, uma geração contestadora dos costumes e do modo de viver dos pais'', recorda o geriatra, defendendo que os novos aposentados irão envelhecer como viveram. ''Vão reproduzir na aposentadoria o que fizeram na vida'', diz Lima Filho, completando que esta nova geração ''é a geração de todas as idades''.
Para o geriatra Marcos Cabrera, professor do módulo envelhecimento da faculdade de medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a aposentadoria é um marco na vida do indivíduo. ''É um luto. Representa a perda simbólica do ganho financeiro e dos filhos, que já saíram de casa, além de ser seguida pela transformação do corpo'', enuncia.
É justamente nessa época que começam a surgir doenças e aumenta da ingestão de remédios, complementa Cabrera, ressaltando que é preciso equilíbrio emocional para lidar com a situação. ''Ter um bom planejamento e definir novos projetos é fundamental para o período pós-aposentadoria'', aconselha o médico.
Para ele, a aposentadoria pode ser o momento de dar um destino diferente para a vida. ''A pessoa não pode achar que a aposentadoria é uma folga'', declara o geriatra. ''Na verdade, quando alguém reclama de solidão, não está sentindo falta do outro e sim de si mesmo, da vida que levava antes de parar.''

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