Livreiro diz não a obra sobre travestis
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 1998
Cristine Pieske 
Travestis, gays e lésbicas de Curitiba pretendem fazer uma manifestação em frente à Livraria do Chain para prostestar contra a proibição da venda do livro Engenharia Erótica - Travestis no Rio de Janeiro, do psicanalista Hugo Denizart. A data do protesto ainda não foi definida, mas deverá coincidir com a presença do autor na cidade para o lançamento nacional do livro. Tudo para mostrar a insatisfação da classe com a atitude do livreiro Aramis Chain, que mandou devolver os 30 exemplares do livro à editora por achar que não há público interessado em um assunto como este no Paraná.
Acreditamos que não é o livreiro que deva achar qual livro é bom ou ruim para a formação cultural das pessoas, e sim a própria população, diz Toni Reis, presidente do Grupo Dignidade. Ofendido com as declarações feitas por Chain contra os travestis e homossexuais, Reis afirma que o comportamento do livreiro foi igual ao de um censor. Ele pode até não gostar pessoalmente do assunto, mas como livreiro e intelectual jamais poderia impedir o acesso de outras pessoas aos temas que lhes interessam, diz.
O autor do livro, o carioca Hugo Denizart, afirma estar espantado com a atitude conservadora do comerciante. O livro é fruto de um trabalho acadêmico, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, e é uma pesquisa extremamente séria sobre o universo dos travestis e sua convivência com problemas como a Aids, diz. O livro, que reproduz depoimentos e fotos de vários travestis e foi publicado pela tradicional Editora Zahar, faz parte de um projeto do autor de promover debates públicos sobre sexualidade e Aids. Eu sei que estas coisas incomodam as mentes mais fechadas, mas não é ignorando o assunto que as diferenças ou os problemas desaparecem, afirma.
Aramis Chain, que se diz surpreso com a repercussão que o caso tomou, afirma que não se arrepende da decisão. O público formado por gays, lésbicas e simpatizantes definitivamente não me interessa, afirma. Chain, que já deixou de vender outros livros por questões políticas, afirma que barrou a venda da publicação porque ela iria chatear seus clientes. Tenho direito de escolher os produtos que quero vender, diz.


